⌠ 8 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Thaís Bicas
Marginalizada
Escrito por Thaís Bicas


Que não é fácil encerrar ciclos não é novidade. Mas pior que enterrar a história e seguir em frente é ter que o fazer sem que a mesma tenha sido de fato finalizada.

Faz parte de mim procurar por respostas mesmo quando elas parecem não existir. É da minha natureza essa necessidade de investigar, traçar estratégias, imaginar inúmeras cenas e possibilidades na esperança de chegar na verdade. Porém, nesse caso específico, eu não estou pronta pra encarar a realidade. Porque ela me parece muito dura e estar longe de ser o que meu coração deseja. Sendo assim, continuar só no plano das hipóteses soa menos doloroso do que ter que entrar no luto.

É demasiadamente complicado admitir que isso já passou do estágio da paixão. E não, a chama não apagou; pelo contrário, virou uma fogueira. Intensa, ah… tão imensa. Dessas que queimam sem muito esforço. A qual me queima e mesmo assim eu insisto em brincar.

Se não for amor, é ainda maior e mais bonito. De certa forma eu me sinto lisonjeada e grata por conseguir deixar florir em mim algo tão bonito, forte e verdadeiro. Por mais que não seja recíproco, por mais que amar sozinha seja uma sina que me incomoda e me frustra, me sinto em paz por ver que nem toda a amargura, dor e sujeira do mundo foram capazes de me endurecer.

Você não me ama, nem sente algo mais ou menos que isso. Você… não sente coisa alguma. E eu me esforço pra não te julgar porque eu acredito que cada um deve se encontrar e encontrar a felicidade da forma que bem entender. Sua maneira de ser feliz parece ser não ser de alguém e ser de todo mundo também. Não fincar raiz, não esquentar cabeça. Ser livre, enfim. E talvez se não fosse assim eu não teria me encantado por ti desse jeito inesperado e desesperado.

O que eu procuro fazer é evitar o sofrimento pelo que não se pode mudar. O problema é que eu não deixo de esperar; grande parte de mim almeja te ter do meu lado, sendo meu e monogâmico. Porque eu creio que seja inevitável gostar de alguém tanto assim sem desejá-lo inteiramente pra si.

O pouco que você me proporciona não me satisfaz, mas ainda é melhor do que nada. Sim, estou me conformando com migalhas. Sim, eu mendigo afeto, beijo e sacanagem porque nunca me amaram de verdade - e nem de mentira. E, sim, apesar de toda tristeza, agonia e desespero, eu ainda lhe agradeço. Porque sou burra e porque sou absolutamente enfeitiçada pelo universo que tu és - no qual eu habito nas ruas, nas margens, sem teto, cobertor, comida ou água, implorando e ansiando pela sua misericórdia.

⌠ 14 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Costa
Cidão e o Encosto
Escrito por Nego Rockhard


Nunca fui um cara supersticioso. Pra ser bem sincero, eu nem acredito em deus, em santos, em fantasmas, em nenhuma merda dessas. Não acredito que quando eu morrer vou pra algum lugar onde o chão é de ouro e tem sete gostosas loucas pra dar pra mim. Muito menos que eu vá pra um lugar feito de fogo, onde um filho da puta sádico vai ficar enfiando um garfo no meu rabo. Não, definitivamente nunca acreditei em nenhuma dessas merdas. E mesmo assim aqui estou eu, ajoelhado dentro de uma igreja, conversando com o padre sobre o suposto encosto que têm transformado minha vida em uma merda nas últimas semanas.

- Você precisa ir ver o Cidão. O padre falou.
- Cidão? Quem é esse cara?
- É um xamã que mora pra pro lado de Taboão, em casos como o seu, ele é o único que pode ajudar.
- Puta merda, você não pode fazer alguma coisa? Sei lá, rezar um pai nosso?
- Meu filho, você tem uma entidade real te fazendo mal, se Deus colocou ela aí, só a religião pagã pode tirar.
- Fala a verdade, você não sabe de merda nenhuma não é?
 
Padre filho da puta.
 
Os últimos dias tem sido uma merda. Não consigo dormir e, quando durmo, tenho pesadelos. Comecei a sentir dor nos dentes, nas pernas, na cabeça. Cansei de tomar comprimidos que não fazem efeito. Já tinha aceitado viver assim, quando sonhei que tinha um encosto fodendo com a minha vida, por isso iniciei minha busca pela ajuda espiritual. E tudo isso tem sido uma merda.

***

- É o excesso de trabalho, amor.

Estávamos deitados na cama, eu e Luísa, depois de uma trepada. Ela está nua, com os seus seios pequenos apoiados no meu corpo, me olhando com curiosidade, como se procurasse alguma doença. Com esses olhos castanhos enormes.

- Trabalhei nesse ramo minha vida inteira e nunca fiquei tão ruim assim.
 - Ixi, já pensou se você começa a ficar broxa também?
 - Cala a boca.

Assumo que esse pensamento me assombrou.

- Minha amiga conhece um sensitivo muito bom, que tirou o encosto do marido dela quando ele tava ficando broxa. Agora ele, o marido, não falha mais na cama.
- O que foi? Eu não te satisfaço mais caralho?"
- Não é isso, mas é bom prevenir né. O nome do sensitivo era... Hmm.. Cidão!
- Que merda de nome.

***

No dia seguinte visitei Pai Bruno, um pai de santo que é famoso na região central. Ele estava em uma dessas casinhas no meio do lixo que tem no bairro da Liberdade. O lugar era mal iluminado, com pequenas lâmpadas acesas por gato ligado diretamente nos postes da rua. A tinta vermelha da parede já descascava quase que por completo. Fui guiado por um garoto até uma sala pequena, onde estava o pai de santo, um negro gordo, que vestia uma bata de ceda meio rosada, uns colares e uma parada na cabeça que não sei o nome. A cadeira em que ele estava sentado tinha um aspecto tão frágil que parecia que ia quebrar. A mesa também. Ambos os móveis esse filho da puta deve ter encontrado no lixo.

- Pode se sentar, menino. Ele disse.
- Prefiro ficar em pé. Respondi, com receio de quebrar a cadeira caso eu sentasse nela.
- Bom, se o menino quer ficar em pé isso não é problema meu. Que que tu tem?
- Encosto.
 
Ao ouvir minha resposta, o Pai Bruno fez uma cara de desconfiado. Levantou e saiu da sala. Notei que aquele lugar tinha um cheiro doce, enjoativo. Fiquei sozinho por alguns minutos, quando ele voltou trazendo uma vela branca e grossa.
 
- Se a vela queimar preta, é porque o menino tá com bicho ruim. Se queimar branca é porque tá com bicho bom.
 
E acendeu a vela.
 
Não entendi de primeira o que ele queria dizer. Ele agora cantava em um idioma que eu não sabia se existia mesmo ou se ele estava inventado na hora. O fogo da vela parecia queimar mais forte, então, aos poucos, a vela começou a derreter, a cera derretia, escorregava e se acumulava na base, ficando cinza, depois preta.
 
Aí eu entendi.
 
Ele ficou nessa cantoria um bom tempo, a vela chegou na metade. A cera derretida tava mais escura que asfalto.
 
- Menino ta com bicho ruim, trabalho forte.
- E o que eu faço?"
- Menino precisa ir ver Pai Cidão.
- Puta que pariu!
 
Ia meter um chute na mesa, mas uma dor súbita na perna me travou. Caralho. É melhor eu ir ver o Cidão.

***

Não costumo andar com meu equipamento pra fins pessoais. Mas dessa vez não tinha como. Eu estava indo pro meio do nada. Angustiado. Tava com uma sensação de merda. Não que eu pretendesse usá-lo, mas assim eu me sentia mais seguro.

Na porta do Cidão.
 
O Cidão trabalhava em uma espécie de cabana, uma construção feita de pedaços de pau, folhas, galhos, panos velhos. Tinham umas pessoas deitadas em colchões na frente. Uma molecada, uns velhos. Eles pareciam chapados. Fiquei ali parado um tempo fumando um cigarro. Uma garota branca, loira, jovem, descalça e seminua saiu da cabana, falou pra mim que o Cidão já me esperava. Ela tinha um olhar vazio da porra. "Que merda é essa" pensei.
 
Entrei na cabana, o Cidão era um velho, cabelo branco, longo, baixinho, devia ter 1,60m. Ele estava mexendo em uns frascos. Mandou eu sentar. Sentei. Com o cu na mão. Ele sentou de frente pra mim, me olhava fixamente, olhos verdes. Um gato branco saiu do meio do mato e pulou no colo dele.  Cidão levantou, acendeu incensos, borrifou o conteúdo de uns frascos em mim. Começou a emitir uns sons em tom musical e de reza. 
 
Senti uma tontura. A cabana começou a girar. "Caralho, que merda que esse filho da puta jogou em mim?". Cidão dançava pela cabana, enquanto o gato estava em cima da cadeira me encarando. Tentei me levantar mas não conseguia. Senti um vento no rosto. Puxando minha pele. Era a entidade saindo? O gato começou a se contorcer, a rosnar. Puta que pariu. O Cidão não calava a boca. O gato deitou de costas todo torto. O velho parou, com os olhos revirados e começou a fazer sons fantasmagóricos. A cabana começou a tremer. Os frascos caiam da prateleira. O gato começou a se retorcer em movimentos violentos, me segurei na cadeira. "Pra que que eu vim me meter nessa porra?". O bichano torceu o pescoço bruscamente, olhou pra mim e, aos poucos, começou a suspender na minha frente, o bicho estava flutuando!
 
- Caralho! Foda-se essa merda!
 
Saquei a Taurus e dei três tiros no felino filho da puta. - Foda-se esse encosto do caralho!
 
A cabana começou a desmoronar.
O Cidão ficou desesperado porque eu chumbei o gato, voou pra cima de mim, meti um balaço no peito dele.

- Foda-se você, Cidão! Foda-se essa porra toda!
 
Ia sair da cabana, mas algumas das pessoas que estavam do lado de fora entraram correndo, vindo pra cima de mim. Atirei em todo mundo. - Vão se foder, loucos do caralho!
 
Consegui sair da cabana. O resto do povo saiu correndo. A moradia do Cidão virou entulho. Estava caminhando pro meu carro. Parei, gritei o mais alto que pude e atirei pro céu até não ter mais balas no cartucho.
 
- TÁ OUVINDO?! FANTASMA FILHO DA PUTA?! APARECE DE NOVO QUE EU METO UMA BALA NO MEIO DA SUA CARA!
 
Entrei no carro, respirei fundo e saí dali, era fim de tarde, a Francisco Morato estava sem trânsito. Acendi um cigarro e coloquei Dylan no rádio. Voltei pra casa aliviado.

⌠ 19 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Monalisa Santana
Vergonha Mundial
Escrito por Lisa Santana

Vergonha Mundial
 

Vergonha Mundial

 

Há uma semana os brasileiros escolheram as pessoas que governariam a sua nação, mas não aconteceu o que se era esperado. O Brasil precisa de mudanças e continuamos do mesmo jeito, a disputa entre os Petistas e os Tucanos é o que teremos para o segundo turno.

Dilma Rousseff, atual presidente do Brasil, tenta se reeleger disputando o cargo com Aécio neves do PSDB. Não é de hoje que vemos grandes rixas entre os partidos PT e PSDB, até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) criticou a rixa e a postura dos candidatos dizendo que isso está desgastando os dois partidos.

A questão é que o 1º Turno das Eleições foi uma vergonha mundial. Podemos dizer que nosso país só tende a regredir com tais candidatos a presidência, podemos avaliar bastante os dois candidatos durante o debate que ocorreu no dia 14 de Outubro transmitido pela Emissora Bandeirantes.

Os dois candidatos trocaram farpas durante todo o debate. Me pergunto se eles pensaram que estavam em um ringue, porque o que eu vi simplesmente foi um atacando o outro de forma inoportuna, dizendo que a proposta do outro era falsa e desonesta.

Pergunto-me de que forma os dois pretendem governar esse país, já que ambos não tem uma proposta certa para os seus governos. Podemos ver que estamos no meio de uma grande crise, problemas na economia, na educação, na saúde e muitos outros, estamos desestabilizados precisamos urgentemente de uma pessoa que saiba o que quer para esse país.

Gostaria de saber qual será nosso futuro com candidatos como esses. Será que o povo brasileiro não vê ou finge que não ver tudo isso que está acontecendo debaixo de nossos narizes?

Com esses tipos de pessoas que estamos elegendo para administrar o país, tendemos a ver a nação afundar. É isso que os brasileiros querem?
E amanhã, quando vocês acordarem e verem a miséria diante de seus olhos, lembrem-se que foram vocês que optaram por isso. A decisão está nas mãos de vocês e eu sou apenas mais uma no meio de mais de 200 milhões.

Só vemos o que queremos!

Lisa Santana, 13 anos

⌠ 19 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Monalisa Santana
Imagine
Escrito por Lisa Santana

JL


A canção Imagine, que diz, 'Imagine que não há mais religião, não mais países, não mais política...' é virtualmente o Manifesto Comunista... Hoje, Imagine é um grande sucesso em quase todo lugar. Uma canção anti-religiosa, anti-convencional, anti-capitalista, porque ela é suave, é aceita.

 

John Lennon

⌠ 39 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Marisa Oliveira
Síntese II
Escrito por marisa in the sky
(Morning Sun - Edward Hopper)



Mais uma vez,
passo a noite em claro
numa imersão de pensamentos,
em parte platônicos e desnecessários

mais uma vez,
pondero as coisas que falo
nas sequências dos acontecimentos,
e guardo metade para meu auto-confessionário

mais uma vez,
acompanho a variância das cores
e, ao abrir o portão da casa que nem minha é,
de um dia que chega em silêncio

e mais uma vez,
a gama é tão detalhada e extensa
que equivalem toda a noite que passou densa
me dá uma paz estranha

antes, cada vez mais sintética
agora não,
agora sintoniza e sintetiza
dá leveza.

apesar do tempo vigente,
meus olhos ganharam um céu gradiente,
lembrei que no inverno teremos amoras
e também teremos geleia das mesmas

e a manhã mereceu café com chantilly e cigarro
acompanhados de um livro e caderno de versos improvisado
na mesa de fora da clássica padaria da praça central.

(originalmente em http://formula-do-acaso.blogspot.com.br/2012/07/sintese.html

⌠ 39 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Samira
Mapas distintos
Escrito por Samira Assis



No mundo meu
Faz sentido
O que não faz no seu
Não vivo dentro de sua pele
Talvez vá viver um dia na superfície
Nessa arrepiada e fria epiderme

No mundo meu
Não sou passarinho
Mas criei as asas literárias
Que me fez fugir da loucura
A loucura que não é a mesma
Que essa loucura tua

No mundo meu
Não dói a ferida
A mesma que dói em ti
Tem estantes de coisas inúteis
As coisas que no fim
Como borboletas pousarão em mim

No mundo meu
Tem mundo que nem é seu
Tem pedra que não tem no seu sapato
Tem histórias que seriam mito
Para os seus desesperados ouvidos

E no meu próprio mundo
Tem mundo que ainda nem é meu
Tem coisa que nem nasceu
Tem poesia que nem vingou

Mas nesse mundo meu
Tem sempre um pouco do mundo teu.

(Samira Assis)