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Afonso Sauniére
Arcabouço de um abraço
Escrito por Afonso Sauniére

O abraço é a aspirina da solidão
com seus tentáculos mirabolantes
oscilando entre o ataque e a defesa.
Parece um anjo de asas longas
que mede o teu cansaço
e alivia cada pedaço de impureza
que se dissolve no corpo.

O abraço cheio é divino.

Que das gordinhas eu prefiro,
nunca saiu no jornal
mas até o padeiro sabe.
Quando os braços cercam a carne
mas sobra espaço pra apertar.
E sobra querendo conter
como poeta louco que só sossega
quando descarrega tudo no papel.

O abraço assim de tanta pele
dá gosto de infinito com travesseiro.
A vontade é de apalpar tudo
mesmo sem conseguir dar conta.
É uma viagem longa só de ida
pra ilha de Tristan da Cunha.
O peito descansa como um gato
com a preguiça em cima do dono.

O abraço magro é delicado.

É um vaso que se segura com cuidado
e, mesmo que agarre, falta espaço.
Falta porque os braços se encontram
como se tomasse um caminho diferente
e fosse acabar no mesmo lugar.
É acalentar no peito o rosto doce
com o cuidado de bebê faminto.

O abraço assim de pouca pele
dá gosto de fragilidade com consumo.
A vontade é de puxar rente ao corpo
como se fosse entrar um no outro,
como se tudo fosse fugaz,
como se tudo fosse abstrato e,
no final, o que fica é mais vontade
como missão não cumprida.

Sim, o abraço cheio é divino,
mas é que eu encontrei
em braços magros e em pele pouca
O lugar mais confortável do planeta.
E se o mundo descobre o poder que ela tem
com esse acariciar de neve,
será mais requisitada
que a paz em meio à guerra.

 

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Thaís Bicas
Cegueira fajuta
Escrito por Thaís Bicas


Eu consegui prever o fim antes mesmo de tudo começar. 

Ser sensitiva é vantagem na maioria das situações, porém inútil quando escolho ignorar os sinais. Sinais estes que sempre estiveram lá, fortes e inapagáveis, indicando o tamanho do perigo. Mas ser perigoso só fez com que eu quisesse ainda mais. 

Por saber no que eu eu estava me metendo, me garanti demais. Sentia-me segura e esperta, tendo em mente que seria apenas um passatempo e uma oportunidade de provar a mim mesma que, algumas vezes, conseguimos o que queremos. 

Esqueci de lembrar o quão raro é eu ter interesse em alguém, o quão atrativo você fora pra mim, e o quão fácil é reacender chamas antigas. 

Apesar de ver o fim do abismo bem ali na minha frente, nos seus olhos, eu corri em direção ao mesmo. Queria ir até onde desse, observar o vácuo de cima, e gritar pra ele: “Ei, você não vai me engolir!”. E, bem… eu caí. 

Você era o sonho bom e platônico que eu jamais pudera imaginar viver. Mas a realidade, ah… ela não perdoa os sonhadores feito eu. O que eu queria era, ao menos uma vez, realizar algo utópico. Porém, por nunca ter experimentado a sensação da conquista, não soube lidar. Não soube viver o sonho. Não soube viver você.

Daqui de baixo, na parte mais profunda do abismo, tenho uma perspectiva diferente e inúmeras frustrações para pôr na minha lista particular. O sentimento de não ter feito e sido tudo que eu sei que tinha potencial para caso não fosse tão crua de bagagem de experiência e amadurecimento. Ninguém gosta de fracassar, e eu gostei ainda menos. E, se tratando de fracassar com você, o peso nos meus ombros foi triplicado. 

Não há quem me tire daqui. Todas as (poucas) tentativas até então foram em vão. Ninguém quer se arriscar, ainda mais por alguém que sabia dos riscos e quis dar a cara à tapa mesmo assim. Talvez eu mereça essa estadia no quase-inferno. Talvez ficar aqui seja menos doloroso do que sair e ter que recomeçar fingindo que você jamais fora minha realidade. Talvez esse lugar não me permita enxergar o quão ruim é te ver sendo realidade pros outros - no caso, pra(s) outra(s).

Mais difícil que o ponto final é não ter forças para colocá-lo

e, ao invés dele, querer reticências eternas.

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Samira
Gravidade Morta
Escrito por Samira Assis



Eu revirei minhas coisas
Daquelas caixas que transbordam de passado
Eu senti cheiros adocicados
Nunca mais tinha feito
Essa tolice de mergulhar
No passado e se afogar.

Mas eu fiz
O que fiz ta feito
Eu ouvi uma canção nova
Na voz de uma cantora
Que um dia você me apresentou
Algum efeito causou em mim
Enquanto atravessava a avenida
O sol caía em minhas costas

Você, é claro, foi embora.

Ê que vida mais à toa!
Mas eu gosto de viver
Eu gosto de viver!
Gosto de lembrar do gosto
Da sua boca
Gosto até, que masoquismo,
Dos espinhos das suas palavras
Empunhando sobre mim

Era uma canção mais ou menos assim
"Down into a clearing..."
Mas fugi dela mesma
Quando vi que você estava em mim
Pairando como fazia alguns anos atrás
Aqueles mesmos olhos
Frios... tristes... moribundos

Quase saí pulando
Como criança
Sensação esquisita
Entre chorar e se matar de rir

Não doeu como antes
Não te quero agora
Nem quero amanhã
Não funciona
É só uma sensaçãozinha que passa

Above the tattered flags...


(SAMIRA ASSIS) 
 

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Thaís Bicas
Sobre ter pouca fé
Escrito por Thaís Bicas

Cada pessoa é um universo único, o que faz a convivência em sociedade ser interessante e excitante. Mas, pra mim, é inevitável comparar algumas delas. Moldar uma de acordo com outras que conheci e tive algum tipo de relacionamento. E é provável - bastante, na verdade - que eu cometa algumas injustiças e construa em torno de mim mesma barreiras desnecessárias. 

O fato de terem me enganado não significa que todos que aparecerem daqui pra frente farão o mesmo - acredito nessa lógica friamente. Mas ter isso em mente não impede que eu faça pré-julgamentos sem fundamentos, além daqueles que eu criei por conta própria. 
Acabei me tornando temerosa ao extremo. Se há um lado positivo nisso, ele é o que me prende no chão e não permite que eu me renda fácil demais. De modo geral, o mundo é traiçoeiro. Entretanto, essa viseira de desconfiança que visto, me cega a ponto de não notar as exceções mesmo que elas estejam bem na minha frente com visores fluorescentes nas testas. 
Minha fé não é tão grande quanto eu gostaria. E isso pode justificar o fato de olhar em volta e não encontrar ao menos uma pessoa com quem contar. Geralmente eu gosto da solidão e da companhia de mim mesma. Mas às vezes - ah, às vezes - eu canso. E adoraria ter alguém em quem recostar a cabeça e ficar sem dizer uma palavra, ouvindo e apreciando apenas a respiração e o batimento cardíaco alheio.
 
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Vitor Reis Graciano
Pensando bem...
Escrito por Vitor Graciano


E lá estava ele, atrasado, como de praxe, numa correria já rotineira e a qual já estava habituado. Sentia falta nos dias mais folgados. Pensamento longe e o corpo numa espécie de auto comando em direção ao próximo destino, pensava:

“Hoje meu dia é cheio, afinal, cheguei ao dia mais importante dos últimos anos da minha vida, hoje é o grande momento, se os resultados forem os esperados... nem consigo imaginar direito, será que vale um nobel? Acho que sim, afinal, terei descoberto a cura do câncer. Quantas pessoas vou salvar, quantas vidas deixarão de sofrer com um resultado tão cruel nos dias atuais? Tenho que revisar minha agenda, compromissos, testes, terminar meus relatórios e, ainda hoje, vou divulgar ao mundo minha descoberta.

Fico relembrando meus dias de luta, minhas dificuldades, quanta coisa já passei! Tenho que pensar nos agradecimentos, não posso esquecer de ninguém.”

Foi nesse momento que sentiu um forte esbarrão, abaixou, pegou alguma coisa que havida caído e percebeu que acabara de perder o ônibus da faculdade, acabara de perder uma aula importante e já não valia à pena muita pressa. Sentou-se em um banco ali mesmo, no ponto de ônibus, e imaginou:

“finalmente descobri a cura da...”

E seguiu sonhando acordado, como todos os dias, sempre pela manhã, quando ainda lhe resta um pouco de tempo para isso, quando seus pensamentos ainda não foram ocupados com cálculos e fórmulas, enquanto suas aulas ainda não começaram.

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Dani Ribeiro
O Sofá
Escrito por Dani Ribeiro

Um quase-luxo
Um pequeno descuido.

O assento digno do sofá
Servia obediente às bundas
Fedidas, cheirosas,
Gordas, magras
Lisas, peludas
Esculpidas ou com celulites

Da chegada à visita
Uma preguiça crônica
Um descanso do cansaço
Cabeças imbuídas de imagens televisivas

No centro do pomposo sofá
Uma mancha imperceptível
Coberta pelas nádegas

Era ele, o sofá
ora servido ao deleite dos prazeres
ora servido ao social de acomodar as bundas