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Fábio C.
#SomosTodosSensacionalistas
Escrito por Fábio C.
 
Reproduzimos e enfatizamos a depender do que queremos ver.

sensacionalismo

Vivemos uma crise política perdurante que açoita com o cansaço, continuamente, a nossa esperança de dias melhores. Envoltos por dispositivos com ferramentas e recursos socializadores, nos dessocializamos e vemos, a "olho nu", o quão divididos estamos. Batemos no peito em defesa de pontos de vista rasos e ideologias quebradas, defendemos indivíduos indefensáveis e lutamos por ideais fomentados por interesses puramente individuais. Qual a solução quando nós, que somos a solução, não nos enxergamos como solução?

Nossa capacidade resolutiva está atrelada à nossa capacidade de análise crítica, e analisar criticamente nada mais é do que tentar compreender, com justiça e sensibilidade, ações e fatos de maneira conjuntural, levando em conta contextos, processos e realidades. Não é tarefa fácil. No âmbito da política brasileira, as críticas se dividem em duas únicas partes (contra vs a favor), que emanadas por figuras de representativo alcance, dizem de tudo e analisam de nada. Assim, desnorteados, nos confrontamos virtualmente com consequências realmente nada favoráveis à resoluções.

Divididos, enfraquecidos por uma mídia conturbativa (que recorta, expõe o que convém e da forma que lhe convém), perdemos um tempo precioso tratando e discutindo politicagens (trâmites da má conduta de indivíduos na prática política), canalizando energias e recursos para os problemas, sem reflexões. Chamamos a atenção e esquecemos de propor soluções; nos vemos como protagonistas, mas não passamos de meros coadjuvantes, seguindo, coletivamente, o ritmo dos que dominam e querem continuar dominando.

E a solução? Tarda, mas não falha? Enquanto tadarmos, pode falhar inúmeras vezes.

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Fernando Costa
Agente 16
Escrito por Fernando Costa

Definitivamente, ufologia e teorias da conspiração não estão no top 10 assuntos dos quais eu gostaria de falar sobre. Mas confesso que me diverti bastante escrevendo esse texto. Espero que vocês também se divirtam durante a leitura. Abraços! 
 
***

Era uma dessas tardes quentes de São Paulo. Os últimos tempos estavam conturbados. Protestos. Brigas nas ruas. Confrontos entre a polícia e manifestantes. Pode-se dizer que estávamos, no mínimo, distraídos.
No meu escritório, sentado na velha cadeira de couro marrom comprada de um brechó, de janela aberta, eu fumava um Lucky Strike vermelho. Amargamente arrependido de não ter mandado consertar o ar-condicionado quando tive a chance:

- Você deveria ter mandado consertar o ar-condicionado.

Disse Wilson, um pobre coitado de vinte e poucos anos, careca, pardo e magrelo. Meu "Auxiliar Administrativo". Se formou em publicidade e não teve muita sorte nesse setor. Acabou tendo que aceitar o salário e as condições de trabalho de merda que eu ofereço. Não por maldade, mas porque eu vivo quebrado:

- Eu sei, eu sei. Com o dinheiro do próximo caso eu mando arrumar.

Ah, eu não te disse? Sou detetive particular:

- Ótimo. Um tal de Joelson te ligou. Pediu pra retornar com urgência.
- Isso há quanto tempo?
- Hoje de manhã.
- E você só avisa agora?
- Precisava da garantia de que você iria consertar o ar.
- Depois conversamos sobre isso, passa o número dele.

Liguei pro cara. Atendeu no primeiro toque. O número era de telefone fixo. Ele ficou parado ao lado do telefone esperando minha ligação?

- Alô? Joelson? Recebi seu recado. Aqui quem está falando é David, detetive particular. Em que posso te ajudar?

Quando ele respondeu, falou ininterruptamente por cerca de três minutos. Ouvi atentamente. Boquiaberto e chocado. O rapaz estava claramente perturbado. Se identificou como ufólogo, disse ter provas da existência "deles", de como "eles" agiam e que estavam entre nós. O bom e velho papo de quem fritou os miolos com o uso prolongado de alucinógenos. Esperei que ele terminasse de falar pra desligar o telefone na cara dele:

- E aí, o que era? - Peguntou Wilson.
- Um maluco. Falando algo sobre ETs.
- Ele não parecia maluco quando falou comigo.
- Mas era. E eu não sou psiquiatra pra ficar cuidando de doido.
- E se fosse um maluco com dinheiro? Pô, chefe. A gente precisa desse ar-condicionado.

Me joguei na cadeira. Acendi outro Lucky. Faziam 36 graus naquele momento. O garoto estava certo. Peguei o telefone e liguei novamente.

- Rua Pastor Damião, 360, quarto 28 - Foi o que ele disse quando atendeu, seguido de - Venha depressa, por favor, eles estão vin-

E foi interrompido por um som ao fundo. Eu nunca fui bom de ouvido mas parecia muito com o som de alguém derrubando a porra da porta:

- Puta que pariu! - Gritei enquanto pegava meu casaco e corria pro meu Siena. O cigarro ainda na boca.

***

O local era um hotel na Bela Vista, bem perto do meu escritório, voei pela faixa exclusiva de ônibus na Brigadeiro Luis Antonio e cheguei lá em minutos. Deixei uma bala na agulha do meu .38 e desci do carro. Atravessei a rua rapidamente. Um calor da porra e eu de casaco pra esconder o coldre.
Entrei no hotel e a recepção estava vazia. Subi as escadas e entrei no corredor do segundo andar. O lugar estava tomado por um silêncio ensurdecedor. De uma janela aberta no fim do corredor eu conseguia ouvir o som da rua: Motores de ônibus, buzinas de motos, conversas difusas entre as pessoas. Passei pelas portas até chegar no quarto entre o 26 e 30. Quarto 28. Onde Joelson supostamente estava hospedado. A porta estava no chão. Tiro o .38 do coldre e entro:

- Joelson?

Ninguém responde. Caminho pelo quarto. É pequeno, uma cama, uma escrivaninha e um banheiro. Está vazio. Faz um frio absurdamente fora de contexto. Começo a sentir que vou me foder. Verifico a escrivaninha: Documentos, fotografias, mapas, anotações, o telefone que ele usou pra me ligar. Na parede a frente, mais documentos pendurados. O Rapaz viajou fundo.
Ao lado da cama encontrei um retrato de um gordinho de óculos abraçado com uma senhora. "Deve ser ele. E essa provavelmente é a mãe", pensei. Eu observava o retrato quando ouvi uma voz fria, morta, quase robótica, atrás de mim. Minha espinha arrepiou na hora:

- Ele não está mais aqui.

Me virei rapidamente e lá estava ele, enorme, passava os dois metros de altura facilmente. Usava terno e chapéu pretos, óculos escuros e luvas de couro. Que porra é essa.

- Quem é você? - Perguntei.
- Sou o agente 16, da segurança - Ele respondeu mostrando um cartão onde no centro estava escrito com letras grandes "SEGURANÇA" e no canto inferior direito, com letras pequenas, "AGENTE 16" - E preciso que você se retire imediatamente.
- Segurança de onde? E o que você fez com o pobre gordinho que dormia nesse quarto? Não é querendo ser chato, mas ele me deve um conserto de ar-condicionado. Preciso que você o devolva, e se você não devolver... Bom, vou te dar muito mais trabalho do que ele deu. - Eu suava frio, quase tremia enquanto falava -

Então o Agente 16 tirou os óculos e o filho da puta não tinha sobrancelhas e me encarou com os seus olhos anormalmente grandes.

- Você é o detetive David Fletcher não é?
- Isso mesmo.
- Li o seu arquivo no caminho e assumi que você é um homem inteligente. Estou errado?
- Não.
- Então, detetive, eu sugiro que você não faça mais perguntas e saia. Embaixo do travesseiro está todo o dinheiro que ele tinha, considere esse o seu pagamento.

Levantei o travesseiro e tinham duas notas de vinte embaixo dele. Olhei pro Agente 16, queria perguntar se ele estava falando serio, mas ele estava me encarando com aqueles olhos gigantes. Guardei o revólver, acendi um cigarro, coloquei as notas no bolso. O Agente colocou de volta os óculos escuros e ficou imóvel. Passei pelo pequeno espaço da entrada que ele deixou livre, de forma que ficamos constrangedoramente próximos por alguns segundos. Ele me acompanhava com a cabeça. Voltei pelo corredor sem olhar pra trás, sabendo que ele continuava me observando. Já havia descido o primeiro degrau da escada quando ele disse:

- Vá pela sombra, detetive.

Parei por alguns segundos, tentei pensar numa resposta, mas só conseguia pensar em sair daquela situação bizarra.

Desci as escadas sem responder.

***

Com os quarenta reais do Joelson comprei um ventilador usado na Santa Efigênia, que larguei na mesa do Wilson quando voltei.

- Liga isso aí. - Eu disse.
- E aí, como foi lá? Viu algum alien?
- Se eu te contasse você não acreditaria. - Respondi acendendo um cigarro e me jogando na minha cadeira.

Wilson ligou o ventilador. Constatei que ele (o ventilador) não servia pra nada, quase piorava. Era como se estivesse jogando ar quente na minha cara. O que havia acontecido? Então as teorias da conspiração eram reais? Refleti um pouco e não cheguei em nenhuma conclusão aceitável e a verdade era que eu já estava de saco cheio. Foda-se aquele ventilador de merda, foda-se o Joelson, foda-se o Agente 16 e foda-se a ufologia.

Faziam 37 graus em São Paulo e estávamos entrando na semana mais quente do ano.

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Karina Harley
Woodkid - Iron
Escrito por Harley
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Amanda
VOCÊ TÁ SUMIDA!
Escrito por Amanda


Segura o choro, segura
Segura o vômito, segura
Segura esse assédio nosso
de cada dia.

Segura essa dor, segura
essa ferida aberta ensanguentada
sem pontos, com analgésico
Segura que logo passa

A injúria da carne está bem medicada
Mas e a ebulição do ser
A angústia, dói quando toca?
Se mata, mas não faz sujeira.
Sujeira choca.

Segura, que esse choro vem
Que nem vômito
De uma só vez
Que transborda.

 

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Ederson Oliveira
Só sei que foi
Escrito por Ederson Oliveira

Eu não sei o que foi.
 
Não sei se foi o jeito de rir sem se conter, do jeito mais sincero e feliz que eu já vi.
Não sei se foi por causa das flores, sejam elas de verdade ou estampadas, grande ou miúdas.
Não sei se foi, quem sabe, a simpatia que faz todo mundo reparar.
Não sei se foi a luz indireta e pouca da sala de cinema.
Não sei, também, se foi a luz intensa e solar da praia.
Não sei se foi o espelho nos olhos, refletindo o mundo
Não sei se foi o sol no cabelo ou o gliter no rosto.
Não sei se foi o amor no peito ou o brilho do olho.
 
 
Dizem que nunca é uma coisa só, e sim uma mistura de detalhes e idiossincrasias.
Ou amor mesmo, da jeito mais simples possível.
Só sei que foi.
 
alt
 
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Manoelle
Pureza Daninha
Escrito por Manoelle D'França


Ó, rainha, erva-doce, erva minha.
Venenosa estrela-de-anis, dos lábios de botão de rosa e olhos negros como cassis.

Ó, mulher, feiticeira; ó, menina.
De alma impenetrável como um espelho, 
Refletes minha imagem de volta sem revelar-me teu interior;
Bem como o imaginário mel dos teus lábios deixa-me em dissabor, 
Por não saber seu gosto,
Por ainda não ter descoberto o grau de ebriedade que me traz este amor pressuposto.

Branca rosa, recendendo a sedução.
Quero provar da tua doçura, quero sentir o toque da tua mão.
Quero tocá-la suavemente, como se toca as cordas de uma harpa, 
Quero bebê-la numa taça de cristal.
Para remover do meu coração esta farpa,
Só mesmo tua inocência cedendo a este amor irracional.

Quero descobrir tuas belas curvas, moldando-as como barro.
Quero ter-te acolhida, sob o meu afago.
Quero mostrar-te o céu, e remover de minha boca o fel da desilusão.
Quero provar-te, quero amar-te.
Quero dar-te meu coração, moído em reluzentes grãos de paixão.
Quero dar-te de um homem apaixonado, a devoção.

Dê-me a oportunidade de fugir dos meus sonhos e viver a tua realidade
Deixe-me mostrar-te o que é o amor de verdade.
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Samira
Insônia, semi-crônica e traseiro chutado.
Escrito por Samira Assis


Olha que ironia da vida. Logo eu que ia impaciente consolar a moça de coração partido levando lhe copo d'agua com dose de deboche, dizendo: "Levanta mulher! A vida é mais que isso!". Indiferente ao pé na bunda, porque não era meu traseiro que, passando dias, continuava a latejar.
E faz dois dias que ele não liga e eu vá desabar em choro. Lá fora chove canivete. Na TV os casais que não apareciam tanto, começam a saltar na tela. E eu que não abracei antes com o mesmo gosto que abraçaria agora, dá uma sensação mesmo de coração quebrado.
Falta uma pessoa sensata que me dê um tapa e diga: "a vida é mais que isso menina". Até porque tenho uma pilha de calcinha pra lavar. E não combina lavar calcinha e enxugar lágrima e ranho. E outra que depois tudo passa... Mas parando pra pensar, é altamente ridículo e triste se auto aconselhar depois de uma desilusão amorosa (ou seria ilusão amorosa?). Faltou uma sacada e uma garrafa de conhaque pra completar a cena.
É que dói. E não importa o que você pense. Dor é dor. E eu deveria ter sido mais compreensiva com as pessoas antes. E hoje, chorando e deitada no sofá vendo as luzes dos prédios se apagando, me perguntei o que eu teria feito de errado e, na verdade, eu até soube a resposta. Mas não é assim. As coisas acabam quando acabam.
O pior é que ninguém disse que acabou. Só fiz merda e coincidentemente ele não ligou. Aí surtei como pré-adolescente. Sei que não vou morrer, e amanhã vai ser outro dia e que depois vem o outro e a gente sorri de novo. Sei muito bem disso. Só que dói pra cacete...

(Samira Assis)