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Adroaldo Barbosa Jr.
Carta de Michel Tremer para o Papai Noel*
Escrito por Adroaldo

*A carta foi enviada para o Coelhinho da páscoa e vazou...

Papai Noel,

"Verba volant, scripta manent" (As palavras voam, os escritos permanecem)

Esta é uma carta pessoal, um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.

Desde logo lhe digo que não preciso alardear publicamente minha lealdade. Tenho-a revelado desde meus 5 anos de idade quando finalmente você me deu aquela bicicleta cor-de-rosa da Estrela com que tanto sonhava dia e noite. Os presentes que vieram depois (o filme proibido da Xuxa, o LP do Menudo e a faca do Rambo) só fizeram com que a lealdade que eu já tinha se intensificasse ainda mais.

Entretanto, sempre tive ciência de sua absoluta desconfiança e dos gnomos e duendes em seu entorno em relação a mim e ao meu clubinho de amigos, os Lobinhos. Desconfiança incompatível com tudo o que fizemos para manter funcionando a sua casa no Pólo Norte.

                Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles:

1.       Passei os quatro primeiros anos como peça decorativa, um abajur. O Senhor sabe disso. Só acendia se alguém colocava o dedo. Isso machuca...

2.       Jamais fomos chamados para escolher os brinquedinhos que estavam sendo entregues aos outros clubinhos.

3.       Negou o aviãozinho que meu amiguinho Moreirinha queria tanto só por ele ser meu amiguinho. Saiba que ele era fã de “Top Gun” e tinha um pôster gigante do Tom Cruise no quarto. Ele merecia mais que ninguém.

4.       De qualquer forma, mesmo eu sendo o líder dos Lobinhos o Senhor sempre me ignorou. Os melhores brinquedos sempre ficaram para os outros. Saiba que os escoteiros não são melhores que os Lobinhos. Não, não...

5.       Claro que converso com Lobinhos de outras regiões, mas, isso não tem nada a ver com Déficit de atenção.

6.       Querer ser o Senhor não quer dizer que eu tenha inveja. Nem que eu queria seus brinquedos, sua casinha, as renas, os gnomos, seu trono...

7.       Mais recentemente, conversa nossa foi divulgada e (apesar de ser apenas entre nós dois), insisto que não fui eu quem falou pra imprensa.

8.       Os Lobinhos sabem que o Senhor busca promover a nossa divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. Como líder dos Lobinhos, devo manter cauteloso silêncio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: nada!

9.       Faz tempo que não sou chamado pra nenhuma festinha na sua casa. Tudo porque espalharam o boato de que eu só como coxinhas. Isso é coisa de gente invejosa e fofoqueira.

10.   Até o programa “As portas da esperança”, cujas propostas poderiam ser utilizadas para trazer dor de cabeça em massa e assim aumentar a economia com a venda de Dipirona, Novalgina, Anador e até Gardenal, foi tido como manobra desleal. Isso não é coisa de Deus...

11.   Já que a Câmara tinha o Tiririca, tentei trazer ao Senado o Sérgio Mallandro e fui muito criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos trazer também o Patati e o Patatá.

Passados todas essas fofocas, tenho certeza que o Pólo Norte terá tranquilidade para crescer e voltará a distribuir os presentinhos como antigamente.

                Finalmente, sei que o Senhor não tem confiança em mim e nem nos Lobinhos, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.

                Respeitosamente

                MICHEL TREMER
(Líder dos Lobinhos, mãe-de-santo e globeleza)

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Samira
Gravidade Morta
Escrito por Samira Assis



Eu revirei minhas coisas
Daquelas caixas que transbordam de passado
Eu senti cheiros adocicados
Nunca mais tinha feito
Essa tolice de mergulhar
No passado e se afogar.

Mas eu fiz
O que fiz ta feito
Eu ouvi uma canção nova
Na voz de uma cantora
Que um dia você me apresentou
Algum efeito causou em mim
Enquanto atravessava a avenida
O sol caía em minhas costas

Você, é claro, foi embora.

Ê que vida mais à toa!
Mas eu gosto de viver
Eu gosto de viver!
Gosto de lembrar do gosto
Da sua boca
Gosto até, que masoquismo,
Dos espinhos das suas palavras
Empunhando sobre mim

Era uma canção mais ou menos assim
"Down into a clearing..."
Mas fugi dela mesma
Quando vi que você estava em mim
Pairando como fazia alguns anos atrás
Aqueles mesmos olhos
Frios... tristes... moribundos

Quase saí pulando
Como criança
Sensação esquisita
Entre chorar e se matar de rir

Não doeu como antes
Não te quero agora
Nem quero amanhã
Não funciona
É só uma sensaçãozinha que passa

Above the tattered flags...


(SAMIRA ASSIS) 
 

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Adroaldo Barbosa Jr.
Minha Terra Desolada
Escrito por Adroaldo

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Fernando Fantin Vono
Minha cidade subjetiva toda
Escrito por Fer

Aqui e ali, e ainda mais adiante,
Tudo em volta, em cada rua,
Uma familiaridade revive-se no trajeto
E todo um mundo esquecido
Remete uma memória antiga

A casa de madeira está caída,
Mas as pedras do asfalto quente
Parecem estar no exato canto
Eis um lugar alheio ao mundo
Como o devem ser outros tantos

Entretanto, a velhice se disfarça
Na correria das crianças da escola,
São tantas, onde vão parar todas elas,
Nas fábricas de sapatos?
Na tentativa de uma felicidade

Contudo a cidade permanece imune
Avessa à mudança,
sem vislumbre de esquecimento,
parada no tempo,
cheia de novidades fragmentadas
Vai-se e volta-se, esvai-se
Sem saber direito pra onde

Entre o conforto e o desespero
Permanece-se até quando dê,
Talvez para sempre,
Que isso é?
No ritmo caduco
De um ser lentamente,
De um afirmar-se é.

No jornal local, as mesmas cores
Sustentando qual uma muleta
A decrepta turma do sobrenome
Orgulhosa de seu herói aviador
Naufragando no tempo e espaço
Agarrada a um tripé na areia

Entretanto a vida é feita diariamente
Nos bairros que rodeiam,
Em conflitos de bares recentes,
A realidade é plural,
As mulheres parecem cansadas,
Mas são extremamente fortes

Natural parece o desencanto,
De um organizar-se a partir do meio
Que já não é mais centro,
Palco de trapezistas cansativos de pompa
E a cidade é tudo e é solitária
Contudo, se organizam-se um cem número
De ensaios de felicidade

É que lá moram gentes.


Por Fernando Fantin Vono
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Adroaldo Barbosa Jr.
Minha Terra Desolada
Escrito por Adroaldo


O que nasce dessa terra?
Nada nasce,
Nada cresce
Nessa desolada terra.

EU quero acordar a vizinhança
Para ouvir meus berros pela madrugada
Mas, eles não escutam nada,
Não escutam nada que acontece na madrugada.
Eu jogo nas ruas minha música,
Toda minha poesia e frases feitas
Mas eles não entendem nada,
Ninguém entende o que acontece na madrugada.
Eu ando pelas ruas vendo vitrines,
Crianças sujas em seus trapos podres
E choro junto pelos que têm fome,
Não sei por quem choro nem bem quem amo.
Eu abraço os pobres de espírito
E escuto todas suas pobres histórias,
Esses pobres e patéticos de alma pobre
É meu encontro certo nessa madrugada.
Eu passo por ruas e vielas úmidas e escuras
E escuto um choro de criança,
Um repetitivo e desgraçado choro de criança
Que é o pior de todos os refrãos.
Eu vejo as pessoas e seus passos apressados
Em todos os cantos, todos os lugares,
E temo que sigam meus rastros
E apresso meus passos por essa cidade.
Eu ouço as sirenes berrando nas avenidas
Se misturando ao som das discotecas lotadas
E o barulho do metal retorcido
Criando um novo contraste, outro tipo de grito.
Eu canto com você quase todas as noites
E, algumas vezes, me pergunto: cadê você
Que partiu tão cedo e me deixou aqui...
E agora acordo sozinho!
Deus, eu tento e não consigo entender
Razão que justifique esse viver.
Sou peão em jogo que não se vê
Toda a madrugada até o amanhecer.
Algo comove todo o meu ser,
Algo que não compreendo e nem tento entender,
Algo que surge todos os dias quando acordo
E me persegue até o anoitecer.
Algo acontece,
Algo comove,
Algo incompreensível,
Um novo amigo?
Dizem que estar é quase que viver
E viver é o limite do que se pode querer.
De fato, algo acontece que se queira aqui estar,
Porém, nem de todo esse desejo almejo.
Nada mais é suficiente
Quando não se sente mais o aroma das flores,
Quando as cores já não mais emocionam
E não podem ser vendidas ao olhar.
Destes-me tão raros momentos
Que alimentam o futuro ainda que no Presente,
Mas, a vigília que fazes em todos os meus passos
Tira-me o sabor das coisas mesmo em pensamento.
Na minha nobre e pobre terra eu vago
E me alimento das lembranças dos mentirosos,
Embebedo-me com alegria e gozo
E caminho insistente na terra dos leprosos.
Na minha humilde terra vago,
Hora sou soberbo, hora ignorante.
A fome que me cerca é desmedida,
A carne é fraca e a alma idem.
Peco tanto quanto o pior dos pecadores,
Desperdiço um tempo que não mais tenho,
Não diferencio o certo do errado,
Compartilho a ceia com meus detratores.
Não sinto mais o gosto do vinho,
Não reconheço um sorriso,
Não me recordo dos abraços,
Finalmente estou só!
Peso minha consciência na balança de um açougue
E o açougueiro me fita com olhos de rapina,
Não há acordo algum sobre o preço dessa carne,
Nem se é de primeiro ou de segunda.
Deus, tu que és dono das idades,
Conceda-me das horas o seu minuto final
E faça com que o mundo inteiro saiba
Que o miserável partiu, afinal.
Conceda logo esse desejo
E termine de vez com essa obra,
Livre das cidades esse infeliz
Que insiste em saber o que ninguém sabe.
Quando há febre, não faz mais diferença,
Há tempos o sangue é veneno.
O vermelho é a cor da cólera e do pecado:
O poeta sabe quando está condenado.
Se há mesmo poesia nessas avenidas
Tão iguais em diferentes cidades,
Que seja reconhecida
Em prol dos que perseguem a vida.
Enterro na memória mais profunda
As gigantescas torres de concreto,
As grotescas estruturas de vidro
Que imitam uma nova artéria.
Uma nova artéria,
Um novo estilo de vida,
Uma nova companhia
E uma precoce parada cardíaca.
Como os carros que se beijam nas avenidas
Encontro a companheira perfeita
Que me fala ao pé do ouvido:
“_Me aceite como a definitiva!”
Finalmente, o medo percorre minhas veias
E alimenta um sentimento esquecido,
Uma vontade absurda de ver o próximo dia
E tentar outra saída.
Todas as ruas estão congestionadas.
Uma favela inteira acaba de ser incendiada
Enquanto alguns moradores tentam salvar
O que resta de uma vida inteiramente falida.
Há uma reviravolta
Em torno desse humilde coração,
Um carnaval,
Quase que uma provocação.
Todas as veias são velhas e fracas,
Há melancolia em tudo.
Mesmo sem haver poesia,
E vice-versa, há vida em tudo.
Essa cidade é apenas tijolo,
Metal, suor, concreto e vidro,
Cimento preso a sentimento
Muitas vezes belo e muitas vezes feio.
Essa cidade é areia,
Concreto e sentimento,
Tristezas e alegrias,
Poesias jogadas ao vento.
Tem gente que aprende cedo, outras não -
Vivem a vida dia sim e dia não.
Alguns dançam conforme a canção,
Outros se perdem antes do refrão.
Alguns sempre têm razão, outros não -
Muitos se perdem em ilusão.
Enquanto alguns correm, outros dormem
E todos buscam alguma direção.
Alguns sonham o fundo do poço,
Outros sonham com o fundo do rio.
Alguns buscam independência,
Outros são a exceção.
Tem gente que ganha,
Tem gente que se perde,
Tem gente que se torna o problema
E outros pensam ser solução.
Divago sobre o tempo
E sobre os “tipos” que encontro nessa vida.
Perco uns segundos nesse tempo perdido
E, mesmo com tão pouco sentido, quão raro é o momento!
Se você não faz ideia, tampouco eu sei.
Talvez a fome que me consome consuma a você também.
Talvez o vício que afeta os iguais
Seja algo que surja somente entre anormais.
Eu me vicio com os seus tapas
E em cada gole de sua taça,
Cada carinho exagerado oferecido
Em troca de alguns trocados.
Eu me sujo com as tuas mentiras
E assimilo a água das suas sarjetas,
Aprendo atalhos novos em cada caminho
E apago os rastros dos meus próprios passos.
Eu te persigo em cada Igreja e cada casa
E me abasteço da tua ironia,
Visito cada idoso
E faço amizade com os internos do hospício.
Até onde chega a tua maldade
E a quantos abraça a tristeza alheia?
Pode a maldade ser tão inspirada
A ponto de a própria surpresa ser esperada?
Vida que deixa sangrar do lado esquerdo do peito
Os filhos do mundo que o mundo não quer,
Espalhe a novidade que a tristeza tem cabelos
E olhos castanhos mais castanhos que os meus.
Percebo requintes de crueldade
Nesse masoquismo urbano
Onde a pobreza não tem mais idade
E a mentira tornou-se apenas uma vaidade.
Eu me transformo
Em tudo que mais abomino,
Eu surjo no espelho
Como meu próprio assassino.
Eu sufoco e amarro no escuro do meu quarto
Almas pequenas ameaçadas de extinção
E atiro no lixo os sonhos de quem
Acreditou piamente um dia fazer parte da realidade.
Eu ainda sinto na pele marcada por fogo
A marca que machuca, a marca da verdade
E peço que um dia cessem as buscas
E que tudo se torne uma futilidade.
O combustível da felicidade
Corrói e esvai-se aos poucos
E aos poucos me contento
Com o equilíbrio que me sustenta.
Quando olho para meu próprio rosto, dói.
Eu exalo do corpo o resto do medo
E tento não ver como é estranha a linha da verdade.
Procuro o caminho que leva à liberdade.
Disfarço os meus desejos
E reprimo meus absurdos,
Abraço cada pesadelo
E mascaro meu lado mais obscuro.
Eu tento ver algo além do abismo,
Encontrar algo a mais além dos muros,
Transcrever todos os anseios
Escondidos por detrás de cada sonho.
Eu sou eterno,
Sinistro,
Terreno e fraterno
Enquanto dure o mundo.
Há nesse peito um coração dividido
Criado praticamente entre dois mundos,
O mundo que há dentro do abismo
E o que se vislumbra por detrás dos muros.
O meu canto está perplexo
Como também a voz pequena e incerta
Do pequeno que se esconde do outro lado,
Meu outro lado desse mesmo muro.
O que contam em outros cantos
Também contam nesses lados
Mas, o que vale nesses cantos
Também rima em outros vales.
Luzes fortes incomodam muita gente.
A escuridão alimenta o inconseqüente.
Muros altos com grades de bronze reluzentes
São contrastes em pintura de uma tela sem cor.
Flores urbanas são tão surpreendentes
E essa depressão é tão estimulante.
Os sorrisos são amargos e carentes
E a dor casada com juras de amor.
Esses edifícios são tão interessantes,
Onde as ruas molhadas na noite reluzem como diamantes,
Onde transitam os justos e honestos
Que mastigam vaidade e rancor.
Os carros passam e iluminam tanta gente,
Brancos, negros e crianças sem cor.
Poetas são tão metidos a irreverentes
Que assimilam a dor e tudo o que for.
Vejo vidas que traçam um mesmo plano,
Gerações de alegria por engano,
Marcas de época que são puro desespero
Traçando juntos um futuro incolor.
Vejo rostos repletos de esperança
Queimar em público por causa de sua cor,
Os que vivem sem nem mesmo perceber,
Uma pintura fria que escorre sem por que.
Corpos que dançam de altos parapeitos
Quase sempre se vão tão cedo
Desafiando teorias e conceitos
E ignorando todo tipo de amor.
Meus passos são tão lentos
E os movimentos tão intensos,
Os rostos são sempre os mesmos
E espero novamente o sol se pôr.
A justiça que se encarregue de dar clemência
Aos supostos inocentes
Que transitam nas ruas
Espalhando esperança e amor.
Eu quero ter a chance de ver o nascimento de Vênus
E a anunciação em plena primavera,
Quero ser como Santo Agostinho
E ler as sagradas escrituras à luz de velas.
Quero ser como Van Gogh e pintar girassóis
Mesmo que em dezembro a tinta seja vermelha.
Quero ter de novo jardim florido no quintal
E que o beijo que sai de meus lábios não seja nunca mais acidental.
Basta querer algo apaixonadamente
Mesmo estando tão cego e só?
Que o adeus seja digno
E que tudo retorne, finalmente, ao pó.
Surge a idéia de repente
De festejar como um analfabeto,
Aprontar uma mesa e convidar
Apenas os que passam fome.
Todo esse tumulto,
Todo esse protesto,
Todos os roubos
Dessa legião dentro de mim...
Melancolia sempre teve seu espaço,
Amor, tristeza e regressos amargos,
Sentir-se só e ser como sombra na multidão
E abraçar a própria escuridão.
Achar que é romântico sofrer
Por dor que reconhece, dor que sempre se vê
É mais que uma doença, é um caso de amor
Por tudo que machuca e o que causa dor.
Eu deixo que pensem que fui derrotado
Com os ataques inesperados
Dos que bradam gritos de vitória
E esqueceram-se de ser enterrados.
Eu deixo que joguem em minhas costas
A culpa de todos os culpados,
Deixo que queimem toda minha história,
Não importa tanto assim.
Meus lábios correm em busca de palavras
E meus olhos correm em busca de beleza,
Desenho sentimentos mentirosos
Que calam todos os sinos ao redor.
Palavras saem como lâminas
Na voz rouca que sai de minha boca
Desse outro eu que me aborrece tanto
E desafia tudo à primeira vista.
Nas manhãs de primavera as folhas dançam
Ensaiando seus balés desde o nascer do dia,
Será isso vida?
_Será isso o que chamam vida?
Eu quero encontrar a palavra perdida
Entre os afazeres do dia a dia
Que seja tão profana
Quanto proibida.
Quero ir de encontro a uma nova estação
Que me traga uma sensação de alívio,
Procurar o que chamam felicidade
E talvez aprender o que seja isso.
Uma epidemia,
Uma leucemia,
Rimas que ilustram
Um eterno melodrama.
Não se pode ter tudo!
Nem sempre belos são os nossos dias
E continuamos acordando.
As rosas não falam, mas, também estão vivas.
Há fome de amor!
Há fome e o que será?
Há fome nesse lar?
Se há fome, então, há.
Há tempo para tudo!
Há tempo pra sorrir,
Há tempo pra chorar,
Há tempo pra partir.
Eu quero fugir de casa sem deixar aviso,
Correr entre os campos de trigo
E deixar todos aflitos
Tentando entender o que teria acontecido.
Eu quero causar confusão,
O mesmo tipo que trago em meu coração.
Quero molhar todos em volta
Com a tempestade dentro de mim.
Eu quero acordar os que dormem
E os que nunca acordaram,
Quero descobrir quem são eles
E espalhar quem somos.
Amantes dessa dor,
Sedentos sem saber
Onde mais se ter prazer,
Onde mais chamar de “lar”.
Eu desvio o meu olhar
Com todo o ódio desse mundo
De todos os maltrapilhos e vagabundos
Que me reconhecem em um segundo.
Eu quero quebrar essas correntes,
Riscar paredes,
Promover a anarquia
E aprisionar o meio-dia.
Eu quero que chova canivetes
Enquanto rasgo minhas roupas,
Corto meus pulsos
E conto todas as gotas.
Um dia pode ser
Que algo aconteça
E faça que cesse essa tristeza sem fim
E tudo mude, enfim.
Então perco a ingenuidade
Do que ainda resta dessa madrugada
Vislumbro o absurdo de que tudo o que vejo
Ainda seja algo a ser lembrado.
Quem sabe um dia
A poesia se faça cantar
E a brisa leve o canto
A todo lugar.
Eu quero buscar um mundo perfeito,
Eu quero amar o que tem defeito,
Eu quero explorar meu próprio quarto,
Fazer contigo outro trato.
Eu quero te sacudir com violência nesse caixão
E mostrar onde estão todos os ratos,
Incendiar cobertores velhos
Que ora foram belos.
Eu quero te mostrar que te amo
E também te odeio,
Que posso viver só,
Mas, não também não vivo sem você.
A minha loucura é produtiva
E ao mesmo tempo, destrutiva:
Machuca uma multidão
E satisfaz a multidão dentro de mim.
Eu me recuso a fazer parte da matilha
Que passeia em supermercados,
Fingindo uma paciência tão desmedida
Quanto sofrida.
Eu como restos,
Coleciono poeira,
Faço inimigos,
Cultivo sonhos.
Eu troco constantemente de identidade
E perco a noção de realidade,
O meu estado é doente
E eu sou terminal e descartável.
Eu participo desse jogo,
Dessa novela em decadência
Desse repugnante teatro de horrores
Onde somente os cegos são honestos.
Eu sou minuciosamente escravizado
Enquanto me privam do privilégio da escolha,
Enterram nossa vontade
Na cova mais profunda.
O muro que nos separa é baixo
E andamos pulando de um lado para o outro,
Muitas vezes ambos existimos
E, outras, apenas eu existo.
Somos uma freira e uma prostituta
Que traçam uma eterna disputa
Entre os dois lados da moeda
Pra decidir quem foge e quem luta.

 
Tão simples quanto dizer o teu nome
É soletrar os pedaços do teu corpo.
Quero entender qual a graça de Deus
Se teu corpo nunca vai ser só teu.
Teu corpo emana o suor da manhã,
As nuvens encobrem o princípio da dor,
A dor descobre uma nova forma de prazer
E o prazer custa caro a você.
Teu sangue escorre por quase todo lugar
E um mundo novo se abre de repente,
Amedronte a dor passageira
E espere com seu único amor o sol nascer.
Eu limpo o suor que escorre de você,
Você limpa as lágrimas que caem de mim,
Se puder haver no mundo algum amor sem fim
A única certeza é que nunca houve antes um amor assim.

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Amanda
Pequena felina
Escrito por Ariel


Pequena felina, me desculpe esse jeito esbaforido
De te acarinhar o corpo.
Minhas mãos sem jeito que te tocam
Como se toca um instrumento.

Não vá embora quando te beijo
Mas dilates essas pupilas para mim
Só assim
Saberei que é noite

Felina teu pelo macio há muito tempo
É o que adoça minha vida cretina
Ainda que suas unhazinhas
Marquem-me a pele e tirem sangue
Ainda assim é menos sangue do que eu consigo com a tesoura

Não tens nome, és livre
Me faz livre também, pequenina?
Lambe teus bigodes que eu faço igual
Geme teu miado que eu gemo igual
Sobe no telhado que me lasco toda
Aqui debaixo.

Quem te tirou a coleira foi quem te injetou esse sarcasmo?
Quando foi que aprendeu a não correr atrás de rato na roda?
Não rias de mim, pequenina

Quando ronrono no teu colo ou esfrego minha cabeça na tua barriga.

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Júnior Dihl
Idas e Idas
Escrito por Júnior Dihl

Caberia ao florista da esquina, talvez, testemunhar o beijo, mas não, no olho mágico da porta está registrado o primeiro momento em que seus lábios se tocaram. Poderia ter sido naquele instante de bobeira em que se encontraram no intervalo da escola e ficaram sem ação, apenas um a admirar o outro em segredo, com trocas de gentilezas, elogios e brincadeiras.

Ou, até mesmo, no baile de formatura em que foram separados e uma única música os uniu. Talvez fosse “Love of my life” o que tocava naquele instante, ou, quem sabe, “More than words”, mas pouco importa agora, pois mais do que palavras faltaram para que se declarasse ao amor da sua vida naquela noite, por isso constantemente se prende a tais canções.

Noutro dia, também, em que os dois voltavam da faculdade, ele de carona com ela e ela dando voltas para aumentar o tempo de chegada. Ou quando ela terminou o primeiro namoro e carente foi se consolar no abraço dele. Dormiram e acordaram juntos e mesmo assim não fora neste dia em que se reconheceram apaixonados, e apesar de tudo ela voltou a namorar, mas não durou por muito tempo.

Muito pouco provável que na festa em que ele deu para comemorar a nova fase da vida este beijo acontecesse, pois naquela noite, em seu apartamento, estavam: a namorada e ela. Quase vinte e cinco anos se passaram desde o primeiro encontro, ainda na pracinha do parque que ficava perto de suas casas, e nada de se declararem, nada de beijo, nada além de uma amizade.

Quando nada mais conspirava a favor cada um seguiu seu caminho. E, entre idas e idas, a vida deu tantas voltas que lhes colocou novamente um frente ao outro, sem empecilhos, sem compromissos, sem mesmo saberem se ainda havia vestígios daquele sentimento. Até que numa noite qualquer, ao deixar ela em casa, a história teve um novo início, no olho mágico da porta ficou registrado o primeiro momento em que seus lábios se tocaram.

Até mais.

Júnior Dihl – Poeta & Escritor

@JuniorDihl