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Isabela Barbosa
Caminhando sob a vida...
Escrito por Isabela

Andei, andei e caminhei
pontes e montanhas
rios e mares
avenidas e ruas,
atravessando faróis
sob barcos, sob os pés caminhados


Andei a olhar...
céu e chão,
semblantes e rostos
árvores e flores
frutos ao chão, na mão


Buscando números...
voltei, voltei e andei
sob a areia da praia imensa
contando gotas de água
ouvindo canções
coroando letras


Esquecendo de enxergar
vi pessoas a correr
na linha do tempo
sem se olharem


Vi, vi eu vi
documentos impedindo de ser
recuando iniciativas
e tornando pessoas em números


Quem escrevia aquela história contada?
Onde estive, onde vou
é por onde andei
passos entre dados
buscando a luz, o sinal do dia
a vida além do horizonte

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Patrícia Weber
Presente deixando o passado
Escrito por Patrícia Weber

O cheiro de verde, ressaltado pela umidade relativa do ar que faz com que as plantas ao meu redor exalem o que tanto me agrada, está presente nesta agradável tarde. Gostaria que sempre fosse assim. Todas as tardes: esse céu azul, essa sombra fresca, esse cheiro, um bom livro, uma música agradável nos meus ouvidos e uma sensação de que está tudo resolvido. As coisas estão indo muito bem por agora, afora algumas complicações cotidianas e esse péssimo hábito de me preocupar e me precipitar demasiadamente.
Tenho me afastado, sim, de muitas pessoas. É proposital, portanto não se sinta mal ao pensar que o meu "também senti saudade" seja mentira ou um equívoco. Realmente o é. Sabe, por muito tolerei coisas desagradáveis apenas por achar que estava sendo uma chata ranzinza, porém, agora, vejo que o primeiro adjetivo ali não cabia à mim. O segundo, confesso que sim.
O ciclo normal da vida é que as coisas mudem num longo ou curto prazo. Isso foi ocorrendo comigo aos poucos, pouquinhos, e agora já está na cara. Não venha me dizer que estou sendo sem coração, insensível, ou qualquer coisa que nomeie quem é realista nestes momentos; o fato - diria irreparável - é que não somos mais os mesmos. E, portanto, devemos confessar que a culpa não foi nossa. Foi indiretamente, talvez. Mas não vejo motivo para a raiva. Sejamos sinceros com os fatos, com os casos, conosco. Afinal, seu caminho é totalmente diferente do meu, o que torna isso mais do que normal.
Todas essas palavras, é claro, não demonstram o quanto eu sentirei falta. Mas, tal como tudo isso que disse, também sei que tudo o que era divertido antes, não será mais. Pois temos pensamentos diferentes, modo de vida também. Memórias boas fazem bem, e eu prometo me esforçar para guardar as nossas. Apesar de ser racional, falta-me um lugarzinho para guardá-las, porque sempre as perco por aí. Guardarei também as fotos, se o tempo e o desleixo não fizer com que eu as perca. As cartas sei que ficarão ali, no cantinho que quase não mexo. E bem, os sentimentos, esses sei que não perderei. Minha memória emotiva cumpre bem seu trabalho.
Te vejo nas próximas férias, amigo.
 

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Samira
Oração Vespertina
Escrito por Samira Assis



"Senhor, perdoa minha ingratidão
Me sucedeu por essa tarde
Agradecer pelos passarinhos
Que acima de mim cantam
Por não serem mísseis que derramam."

 (Samira Assis)

 
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Isabela Barbosa
Quero viver a vida
Escrito por Isabela

Quero viver a vida
sem manuais, sem as regras impostas
quero caminhar livremente
como os pássaros voam

Quero esperança para todos
este não é um pedido individual
Canto para todos
todos precisamos viver

A tristeza não é justa
ela nasce da injustiça
que lágrimas cessem e sorrisos ressurjam

Não quero viver medindo passos
calculando horas, as contas
não quero que me levem
quero ter a chance de decidir
de fazer minhas próprias escolhas
sem culpas

Quero sentir o próximo
pensar que é meu amigo
não quero olhar e pronunciar a palavra competir
não quero competir
não quero dizer concorrência
nem ser uma
Quero andar lado a lado

Ouvir as crianças...seus gestos simples
sorrisos sinceros
Aprender delas

Quero que meus sentidos saibam
reconhecer cada passo, cada detalhe, cada gesto da vida cotidiana
Coisas simples
Não quero que a pressa, o egoísmo
O meu próprio mundo oprimido
me impeçam de enxergar

Ouvir uma canção e saber no instante
que ela lhe tocou...
Andar com amor

Por quê querem que tenhamos medo?
medo de tudo, da prova, do desconhecido
da entrevista, de falar, de dar sua opinião
Quem nos disse que não se pode?
Sempre foram maneiras de impedir
a autonomia, a chance de ser
Eu quero ser como sou e quero sonhar
um sonho em conjunto

Nenhuma ordem imposta
poderá quebrar dentro de nós
os valiosos sentimentos

Se não concorda, lute

Tiraria as palavras mais autoritárias
dos dicionários e não só deles
mas da vida

Quero  seguir o vento que passa entre as ruas
Quero ver no espelho
não mais os olhos tristes
quero transformar o caminho

Este é um canto para todos
nosso país é imenso... e tão distante estamos um dos outros...
nem as tecnologias nos juntaram...
ou nos deixaram mais distantes?

Olhar para a vida com curiosidade
e lutar pelo que se precisa transformar
mas não sozinho, sempre juntos

Porque acredito em você, então não estou mais só

Somos muitos, muitas histórias, raízes
tradições, sentimentos, sonhos
a multipolaridade de vidas
que merecem viver e não mais aceitar ordens

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Dani Ribeiro
Em Paz
Escrito por Dani Ribeiro

O ato
A insônia
Solidão
E fome
Amordaçados,
E no fim da noite
O abandono do madrugar.

O galo canta
Astuto
Imperioso.
Lá fora, a geada
Gandaia dorme
Em paz
Sossegando

O movimento
Ainda se espreguiça.
Bêbado morto
Por deus, não!
Está deitado na rua
Roncando
Encardido.


As horas mau-vindas
Senhores, acordai-vos!
A noite ainda espera
Sedutora
Ansiosa.
O bacanal resguarda
No sono, os filhos da noite.

Dani R.F.

http://suburbanamente.blogspot.com/

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Fábio C.
O Hiper-realismo de Ron Mueck
Escrito por Fábio C.

ron mueckRon Mueck é um escultor australiano hiper-realista que ultiliza efeitos especiais cinematográficos para criar obras de arte. Embora altamente detalhadas, suas esculturas geralmente eram feitas para serem fotografadas a partir de um ângulo específico, escondendo assim a bagunça da construção vista do outro lado. Aperfeiçoando suas técnicas cada vez mais, hoje Mueck criar obras cada vez mais realistas, perfeitas de todos os ângulos.

A reação perante uma obra de Ron Mueck é de um espanto seguido por uma admiração instintiva (que se dá pela possibilidade de examinarmos os pormenores dos corpos humanos). Será o autor um artista ou apenas um excelente artesão? É o próprio quem se coloca à margem desta polêmica: "Jamais quis ser um escultor. Não sei bem porque faço isto, mas não me imagino a fazer outra coisa. Não me considero um artista, isto é simplesmente a única coisa que sei fazer".

Confira algumas de suas principais obras:

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Ederson Oliveira
"Eu sei, mas não devia"
Escrito por Ederson Oliveira

(O texto dos nossos tempos, parido por Marina Colasanti e adotado por mim.)
 

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."