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Ederson Oliveira
Carta
Escrito por Ederson Oliveira

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É, já faz um ano que não escrevo nada. Muita coisa mudou, mas ainda está tudo igual. Mudaram as pessoas que tenho que ver todo dia, a atendente daquele bar que a gente ia nas sextas e até o aquele meu jeito que você achava engraçado de amarrar o cadarço do all-star. O que resistiu a esse tempo? A mania de sempre sair de casa com um bloquinho e escrever as bobagens que penso na rua. Só que um pouco da graça desse hábito foi embora junto com você. Parte importante do ritual era chegar, te mostrar a “produção” do dia e agüentar seus deboches – dos quais sinto falta. Qualquer dia te mando as coisas que escrevi. Na verdade, é provável que não mande. Não saberia lidar com o fato de não conseguir ver as suas reações ao lê-las. É estranho encontrar com seus amigos e não ter notícias suas pra dar. Não saber onde vive, com quem anda ou que tipo de música anda ouvindo. A propósito, distribui entre eles aquela coleção conjunta de vinis que tínhamos. Cada um mais lindo que o outro, cheios de histórias. Como aquele do Nirvana que você colocava pra ir animando a galera que ia lá em casa antes de parar em um boteco qualquer, ou aquele do Chico Buarque que já deveria estar cansado de embalar as tardes preguiçosas de domingo. Dei todos. Entenda, era difícil ter que olhar e lembrar de tudo que não vai acontecer de novo.
Deve estar estranho eu ter digitado isso, ao invés de escrever. Logo eu, o “ultrapassado averso a qualquer tipo de avanço tecnológico”. Pois é, aprendi que nas horas de solidão esses avanços servem pra te enganar e te iludir a respeito dessa condição. Me fazem não me sentir só, apesar de estar. Talvez e-mails e mensagens sejam efêmeros demais, e não quero ser mais um ao lado de spam de loja de eletrodomestico.
É isso, agora vou ter que sair e fingir que não estou com saudade e que talvez você volte e que talvez eu consiga escrever de novo. Ou esperando que, quem sabe, você me responda pela primeira vez. 
 
 
"Com carinho, R"    (18 de junho de 2011)
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Cláudia Banegas
LEVEZA
Escrito por Cláudia Banegas


Meus passos serenos e contritos
levam-se a um destino desconhecido.
Toco as flores, inclino-me ao chão
e pergunto-me: por que não?

Já provei o doce, que eu prove o amargo.
Que o espelho revele minhas rugas suaves
que o tempo tece em minha alma nua.

Sigo só e o barulho do meu silêncio ecoa
revelando-me a leveza da borboleta
que ama dias de sol.

Se estou perto, se estou longe, não importa.
Ninguém sabe ao certo para onde vou.
Sou estrela no céu suspensa que observa-se ao anoitecer.

Sou orvalho da madrugada,
canto dos pássaros ao amanhecer.
Sou o espinho da rubra rosa,
céu lilás ao entardecer.

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Manoelle
Dançando com a morte
Escrito por Manoelle D'França


                                                                            The tightrope walker, de Anna Moderska

 


A vida é o imaginário

Um imenso palco com cenário
Que muda a cada dia
Da alegria à melancolia
Da caminhada à corrida
Da volta à ida
Do sangue ao mel
Do mel ao fel.

A vida inteira é uma dança
Uma dança perigosa
Melindrosa
Em que nos movimentamos sobre a corda bamba
Do ballet ao samba
Na ponta dos pés.

O equilíbrio é o mais importante artifício
Logo abaixo um precipício
Sem volta
Sem vício.

Move-te com destreza
Com clareza
Com cuidado
Um passo em falso é o mínimo que precisa ser dado
Para que te venha a faltar sorte
E a corda bamba te empurre para a morte
Que vive no coração do precipício
Sem volta
Sem vício.

Lá de baixo ela te observa
Vigia-te sem reservas
Acompanha teus movimentos
Sopra sob teus pés
E aguarda que a queda aconteça em seu devido momento.

Avista tua queda ardentemente 
Saboreia-te com paixão
Consome-te docemente
Enquanto te desfazes na escuridão.

 

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Dani Ribeiro
Vende-se
Escrito por Dani Ribeiro

Anunciaram a construção de um loteamento
"Condomínio Nova Era"
Com domínio particular

Compraram a terra
o morro do cruzeiro
o verde, a fé, a pedra
privatizaram o morro inteiro

Implantaram na cidade
As antenas da modernidade
A gente toda se alvoroçou
Menos os especuladores
Que em tudo seu preço colocou:

o mato, o tato, o beijo
o vinho, o vôo, o jogo
o sonho, o toque, o jeito
o calor, o fogo, o gozo

"As taxas de juros são tabeladas em, no máximo, 12% ao ano ..."


Dani Ribeiro

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Juventude Clichê
Rio de Janeiro
Escrito por Juventude Clichê


A violência? Tsunami.

O trânsito? Vexame.
A Guanabara tão fétida
Que até o Cristo tampa o nariz.
Mas a paisagem é tão linda!
Dá tesão,
vontade de viver,
ser feliz.
E o Pão de Açúcar, então!
É de comer pelos olhos,
de joelhos.
O mar beija a montanha e diz:
“Água mole em pedra dura
tanto bate até que cura”.
Basta olhar o Pão de Açúcar
que o amargo vira doçura!
 
Mano Melo

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Cláudia Banegas
Sementes
Escrito por Cláudia Banegas


Coração em contentamento,
amanhece em gotas de orvalho.
Brisa suave em meu rosto,
toca-me calma
a alma.

Meu tempo é agora,
despojo-se das vestes tristes.
Meus momentos são inícios,
são meios e também são fins.

Meu coração tem pressa
em começar a aprender a amar.
Sou pluma leve em nuvens de algodão.

Borboleta na vidraça,
dúvidas se vão.
Planto semente de mudança,
colho frutos de transformação.

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Henrique Rodrigues Reis
Páginas e páginas...
Escrito por Henrique


Meus dedos sobre a ponta do lápis,

alguns farelos em meu jeans, e enfim...
Aquela tentativa de acertar o lixo.

Sinto uma dor no ombro, um cansaço.
Mas a vontade de surpreender, a busca
pela satisfação, move minhas mãos.

Um pouco de cada coisa, em cada página, 
dentro do cesto de lixo. Já tentei juntá-las,
mas essa vontade de se expressar...

É grande demais, para saciá-la com apenas
alguns devaneios, alguns momentos poéticos,
não sei se consigo.

Não sei se tenho experiência suficiente, para 
tirar algo de dentro que ainda não amadureceu.

Mas continuo tentando, buscando, a chave
dessa prisão espiritual.