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Manoelle
Partindo com a Lua
Escrito por Manoelle D'França

http://fc04.deviantart.net/fs21/f/2007/300/e/d/eda432291c386e3a.jpg

Admirei a Lua antes de partir.
Conversei com ela
e confessei ter acordado pensando em coisas sem sentido,
Do tempo em que, à noitinha, eu sussurrava em seu ouvido.
Senti saudades do que não tive, daquele amor não correspondido;
Dos sonhos que, jogados pela janela,
Foram parar em outros travesseiros;
Daqueles teus carinhos, tão cínicos e traiçoeiros.

Desci, então, as escadas do velho terraço
e fui em direção ao quarto pouco iluminado;
Despedi-me do facho de luz que me escapava pela cortina.
Deslizei os dedos pelos livros empoeirados
e despedi-me docemente do antigo espelho quebrado,
Que todo o tempo lembrava-me de meus fracassos;
Mostrando-os a mim todos os dias de minha vida,
Não permitindo-me que se sarasse sequer uma ferida.

E então, parti.
Mas deixei um rastro antes de ir.
Rastro feito com o sangue da ferida exposta em meu coração,
Ferida feita pelas punhaladas da solidão.
Em meu sangue, sujei a velha caneta-tinteiro
e deixei uma mensagem ao próximo marinheiro:

'E daqui partiu com a Lua um espírito solitário,
Que não mais cursa o mesmo caminho.
Alguém que após o abandono,
Sentiu o frio da solidão congelar o sangue
outrora corrente em suas veias.
De um coração moribundo largado às tantas de uma madrugada.
De um ser andarilho viajando de volta ao pó da criação humana.
De uma única centelha apagada há tempos.'


                                                          de Manoelle D'França


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Marisa Oliveira
Das Escolhas
Escrito por marisa in the sky

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As Duas Fridas - Frida Kahlo

 

É como um rapaz de alma boa, do tipo que empresta neblina, me disse esses dias: "para vocês, eu sempre vou estar bem". Mas pude ver em seus olhos algumas cervejas e mágoas. Mas estavam misturadas com sorriso e chuva.

Compreendi porque sempre fiz o mesmo, pois confiança não se encontra em qualquer esquina, não é pra qualquer pessoa que se empresta neblina, isso faz parte de uma escolha. Além disso, sempre acreditei que evoluímos ao falar mais coisas boas do que ruins, ao escutar mais os problemas alheios do que falar dos nossos e ao aprender a resolver as próprias dificuldades. É claro que em algum momento, se precisa de alguém. Mas na maioria das vezes, os elementos curativos estão dentro de nós mesmos. Então, sim! tudo bem.

 Alguns podem achar que é hipocrisia, outros chamam de egoísmo, outros ainda dirão que são máscaras, mas não. Esse rapaz de alma boa, ele não usa máscara nenhuma. Conheci ele há certo tempo, já tocamos algumas músicas juntos, nos encontramos ocasionalmente em festas e idas ao parque ecológico, mas só fomos devidamente apresentados no começo do ano. Mas, pra mim, sempre o conheci, mesmo não sabendo seu nome até então. Porque a gente enxerga claramente o que ele é, porque ele é, e não tenta ser. O que ele busca, faz parte de uma construção, da qual ele já tem os alicerces e estruturas.

 Nada mais lamentável do que alguém que pergunta trivialmente a uma pessoa como ela está, e esta conta. Gente que gosta de contar quantos tipos de remédio toma por dia. Gente que acha a mãe injusta. Gente que acha que dá demais e recebe de menos. Gente que tem medo de olhar para fora, prefere o próprio umbigo. Tudo gente que não entende que pelo menos houve remédios para amenizar, que houve mãe para gerar, que se pôde dar sem fazer falta, que os olhos combinados com discernimento são o que respondem a maioria do que perguntamos dentro de nós.

Mais lamentável ainda é gente que conhecemos há tempos, mas que, por um motivo ou por outro, não conhece a gente direito. E acreditam ter o direito de saber de nós. E de palpitar. E de estar por dentro. E de dar conselhos não pedidos, que sempre são mais óbvios do que horóscopos ou livros de autoajuda.

Então, sim, tudo bem, pois o que não está, há de ficar. Porque quem realmente sabe do que acontece, pergunta sim, mas compreende independente da resposta ser exata ou não. O que difere é que este compreende com os olhos, com energia, com coração. Este é do tipo que empresta a neblina, presenteia com pôr-do-sol, compartilha histórias e estórias especiais. E, de quebra, deixa tudo bem com abraço e música. Não dá conselho, dá abraço, beijo, e coloca a alma perto, de tal maneira que sentimos que está do nosso lado. 

Então, sim, tudo bem. Porque quando não era, a cura sempre veio, por meio de abraços de almas compatíveis.

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Ramon Bernardo
Musicalizar-se
Escrito por Ramon Bernardo

Esquece-te um pouco as dores,
Arrisca os acordes de DÓ!
Se te é preciso, voltar em macha-ré
Não esquece-te de MÍ
 
Há sempre um FÁ, um fazer que me agrada.
E se te falta luz,
Se inspira no SOL
Que nada cobras, mas ilumina a todos.
 
Encontra no LÁ o teu lar,
E repousas SÍ estiver muito cansado da vida.
 
Enbarque no Buarque,
Usa e abusa, de Cazuza.
Mas não te esqueces, que música
Ah, musica é um sofisticado respirar.

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Ederson Oliveira
apenas uma nota
Escrito por Ederson Oliveira

Que a beleza do meio me inunde. Qualquer esforço pra compensar a erupção interna com a calmaria de fora é aceito. Quero ouvir o ensurdecedor, ele ajuda a calar as vozes byronianas que me acordam e que me levam para a cama. Quero provar o amargo, sem o qual o adocicado não teria qualquer atenção e seria corriqueiro. Falar também, mas aquilo que não é qualquer um que ouve. 
O mundo, imagino, é repleto de oásis prontos a acalmar o espírito do menino confuso e medieval. Talvez não seja fácil encontrá-los. Aliás, difícil mesmo é conseguir calar os ruídos externos que tornam difícil para percebê-los. Mas o rapaz consegue. Hoje pode ser que não, mas isso não é nada pra quem tem a eternidade. E não adianta contar isso tudo ao menino, ele ainda não entenderia...

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Fábio C.
Hamlet de Shakespeare e o Mundo como Palco - Leandro Karnal
Escrito por Fábio C.

“Hamlet é o anti-facebook”

O personagem de Shakespeare, diz o historiador Leandro Karnal, não só não é feliz como não faz questão de parecer feliz. “Hamlet é melancólico, tem uma consciência brutal e, quem tem consciência brutal, não sorri nem compartilha sua vida medíocre o tempo todo”.

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Marisa Oliveira
Ressalvas
Escrito por marisa no céu


The Weather Girl I por Alexandra Levasseur


algumas pessoas acham que sou sonsa séria santa
- não sou, e nem era; quero ser só o que não cansa.
rio alto, percebo, bebo, falo palavrão, gosto de fritar
uso salto, revejo, desejo, uso a mão, dispo com o olhar

outras pensam que não tenho coração
porque não me comovi com a última tragédia da televisão
- eu que já chorei por uma judia alemã,
por crianças do Alemão, por bombas no Vietnã

outras juram que eu não sou amada,
porque nem sempre vejo graça
na garça, que é sempre inédita, na proa;
- sou rio, e não rio, nem sorrio a toa

e algumas pessoas levam muito em conta tudo que eu digo;
- saibam que eu não sei nem das coisas que eu lido
e também não sei do que tenho lido,
e nem sempre me dou bem comigo

 

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Ramon Bernardo
Ao meu passado
Escrito por Ramon Bernardo


“Devo-lhe muito!

Ao meu passado devo minha cultura.

Minha sabedoria.

Minha paciência.

E minha ignorância.”

Vagueia menina, nostálgica vida dentro deste quarto. Pegou todos os meninos para cuidar. Cuidou menos de si do que devia. Escreveu seu nome em bocas sujas. Esqueceu-se de lavar a sua boca antes de proferir seu próprio nome. Se já se sentes envergonhada com o caos que lhe caiu em vida, já não se sentes magoada por todos quantos deitados em sua cama morderam parte do seu futuro.

Mas quem quer saber de futuro? Perguntas do que vem pela frente são tolas, quando se teme o presente e não se esquece de o que se viveu. Não lhe deve contas! Não deve nada ao seu futuro, embora saiba que é dele a incerteza capaz de assombrar os homens.

Ao seu presente deve menos! Seu presente é deitar-se. Abrir-se. Não ousa sentir-se coitada! É boa demais para isso. Para lastimasses.

Ao seu passado deve-lhe tudo. Deve sua força, e sua fraqueza. Deve o medo de monstros e de homens. Sobre tudo de homens. Deve menos ontem, do que deverá amanha. O passado acrescido de juros diários é a regra vital de esse inóspito viver.

Essa menina é alguém que não ouso dizer o nome. Ela é dona de uma grande casa e de muitos filhos. Mas não é dona de si. Só é dona de seu passado, e nada mais lhe resta.