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Marisa Oliveira
Síntese II
Escrito por marisa in the sky
(Morning Sun - Edward Hopper)



Mais uma vez,
passo a noite em claro
numa imersão de pensamentos,
em parte platônicos e desnecessários

mais uma vez,
pondero as coisas que falo
nas sequências dos acontecimentos,
e guardo metade para meu auto-confessionário

mais uma vez,
acompanho a variância das cores
e, ao abrir o portão da casa que nem minha é,
de um dia que chega em silêncio

e mais uma vez,
a gama é tão detalhada e extensa
que equivalem toda a noite que passou densa
me dá uma paz estranha

antes, cada vez mais sintética
agora não,
agora sintoniza e sintetiza
dá leveza.

apesar do tempo vigente,
meus olhos ganharam um céu gradiente,
lembrei que no inverno teremos amoras
e também teremos geleia das mesmas

e a manhã mereceu café com chantilly e cigarro
acompanhados de um livro e caderno de versos improvisado
na mesa de fora da clássica padaria da praça central.

(originalmente em http://formula-do-acaso.blogspot.com.br/2012/07/sintese.html

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Samira
Mapas distintos
Escrito por Samira Assis



No mundo meu
Faz sentido
O que não faz no seu
Não vivo dentro de sua pele
Talvez vá viver um dia na superfície
Nessa arrepiada e fria epiderme

No mundo meu
Não sou passarinho
Mas criei as asas literárias
Que me fez fugir da loucura
A loucura que não é a mesma
Que essa loucura tua

No mundo meu
Não dói a ferida
A mesma que dói em ti
Tem estantes de coisas inúteis
As coisas que no fim
Como borboletas pousarão em mim

No mundo meu
Tem mundo que nem é seu
Tem pedra que não tem no seu sapato
Tem histórias que seriam mito
Para os seus desesperados ouvidos

E no meu próprio mundo
Tem mundo que ainda nem é meu
Tem coisa que nem nasceu
Tem poesia que nem vingou

Mas nesse mundo meu
Tem sempre um pouco do mundo teu.

(Samira Assis) 
 

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Thaís Bicas
Sobre (não) querer arriscar
Escrito por Thaís Bicas


Por um lado é confortável manter as coisas assim: sem rótulos, cobranças e preocupações. Ora, arcar com relacionamentos não é fácil e mantê-los exige um trabalho árduo e diário de ambas as partes. E o que nós temos é quase que o melhor dos dois mundos: por vezes agimos como se pertencêssemos (só) um ao outro a ponto de algumas pessoas desconfiarem que exista algo que nos una além de uma mera amizade, mas quando estamos longe temos nossa rotina, nossos amigos, nossas aventurinhas sem muita relevância - pelo menos da minha parte - e não há qualquer coisa a ser discutida, acertada, vigiada e indagada.

Mas existem os poréns. E não são poucos.

É provável que o pior deles seja o fato de que eu gosto de você. É uma paixão súbita e inexplicável daquelas que a gente não sabe como se permitiu sentir. Daquelas que respirar se torna pesado. Que tira a gente de nós mesmos. Quase uma obsessão. Quase um querer tão grande que assusta e amedronta. E talvez o medo que tenho do que sinto por você seja maior do que a vontade que carrego em mim de que descubras.

Entretanto, eu tento te dizer sem precisar de palavras, porque elas parecem inúteis e sem significado partidas de mim quando estou contigo. Você me hipnotiza tanto que formular frases simples se torna difícil. É como se eu me transformasse numa completa idiota incapaz de raciocinar e agir normalmente diante de quem eu mais quero e, sendo assim, não faço ideia de como lidar tanto com meu coração quanto com você.

Me calo e te fito. E te decoro o máximo que posso. E tento ser o mais transparente possível pra que você note esse tanto que eu quero te devorar, te possuir, te chamar de meu - e de fato ser meu.

Parte de mim acredita que você sabe (esperteza não lhe falta), mas prefere não comentar a respeito. Por não ser recíproco ou por ter tanto receio de arcar com qualquer coisa além da situação na qual nos encontramos agora quanto eu. Ou os dois. Ou nenhum dos dois.

Apesar de parecer injusto o quanto eu poderia lhe dar e seria capaz de fazer pra te ver e te ter feliz, isso pode não bastar. Eu posso não bastar.

E tentar ultrapassar essa linha pra descobrir é arriscado demais. Só a ideia remota de perder o pouco que temos - e que, honestamente, não sei nomear - dói e me põe em desespero.

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Roberta
Ainda guardo lembranças
Escrito por Roberta

Ainda guardo o disco rasgado, a carta amassada, o sorriso trincado
Ainda tenho a carta rosa, o bilhete á mão e a iniciais gravadas no fundo do caneco
Mas do que me adianta todas essas lembranças
Me importunando para lembrar que não sobrou ninguém
E que ninguém voltará

Me acusam de indiferença por não lembrar, saudar, insistir ou procurar
Mas foi por não ser indiferente que hoje tento não chorar
Na fila do banco, no banco do ônibus, no ônibus lotado,
Na cheia do mar, no canto do quarto, no chuveiro ligado

Me aponto desnecessária. Não há contestações.
Tentei me projetar na parede da sala para te contar
Que não, eu não consigo sozinha, mas você não prestou atenção
O filme estava mais interessante que a minha vida

Três páginas. Lembranças que eu não quero mais
Mas se eu não as tiver como vou lembrar que pessoas passam por nós
E no fim, nos deixam? Talvez seja esta uma das leis naturais da vida...
E como vou lembrar de sentir saudades do outrora e retroceder no tempo?

A indiferença que me veste
Foi costurada com a cegueira calculada
Dos que me presenteiam com sorrisos e me ferem com adeus
Ainda guardo o disco rasgado, a carta amassada, o sorriso trincado
Ainda tenho a carta rosa, o bilhete á mão e a iniciais gravadas no fundo do caneco
E agora, agregadada á coleção de lembranças, tenho a visão
De que tudo é ilusão
Todos se vão

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Kainan Ismar
Pacote de Plástico
Escrito por Kainan Ismar

Já era onze horas da noite.
Ele ainda não estava em casa, esperava. Esperava no frio, no terminal, seu ônibus.
Havia naquele dia um número maior de pessoas do que nos outros, algo estranho no ar.
Ele olhava as pessoas e não as enxergava.
Pensava na frase: "Eu vejo a vida que está em ti, você vê a minha em mim?"
O que aquilo queria dizer? Ele estava em outro mundo.
De um instante a outro percebeu-se fixamente encarando um pacote de plástico.
Já não estava mais no terminal, estava no espaço entre ele e o pacote.
Nada mais havia ali. O ônibus não viria.
Percebeu também que ao fitar o plástico daquela maneira, ele ignorava.
O fazia sentir-se bem.
Não havia opressão a sua cor, a sua raça, a sua religião, a sua sexualidade, ao seu eu.
Era tão somente ele e o plástico.
Pacote do que aquilo era? Pertenceu a quem antes de ser jogado no chão? O que ele guardava?
Não interessava.
O plástico transformou-se em uma metáfora, um refúgio.
Tentou desviar o olhar, mas viu-se incapaz. Ainda não era o momento de sair.
Notou, involuntariamente, que pessoas chegavam e o rodeavam, esperavam com ele o ônibus.
Pra onde o ônibus o levaria? Por quê? O plástico era a salvação.
Sentiu um vento frio cortando o pouco calor de todos, o dele, em compensação ao transe, não fora abalado. No lugar onde ele estava não havia clima.
 -Eu vejo a vida que está em ti! Você vê a minha em mim?
Isso lhe dava segurança. Ninguém nunca perguntaria isso a outra pessoa, não nesse mundo, mas para ele aquilo deveria tornar-se necessário.
A frase protegia o ofendido, o oprimido. E afastava o ofensor, o opressor.
A frase não permitia a ofensa nem a opressão. Era pura.
De repente, seu corpo moveu-se para frente. Os olhos fixos, o corpo a frente.
Duas ou três pessoas passaram por seus olhos, conturbando a meditação.
Conversavam alto e falavam demais. Quem eram? O que representavam naquele momento de paz?
PAZ.
Não havia mais ninguém novamente.
A paz do plástico o alimentava, o supria, de uma carência antiga.
 Uma voz lhe disse irritada: 
- Pare de me olhar.
Assustado olhou em volta. Alguém descobrira seu segredo, seu plástico.
Não havia ninguém, estava só.
Quanto tempo esteve ali?
Fechou os olhos e bocejou o maior dos bocejos, estava cansado, precisava de um banho e sua cama quentinha. Precisava fugir para outro mundo, precisava.
Abriu os olhos.
Todos estavam a sua volta novamente. O ônibus, longe, vinha em sua direção. O plástico? Era uma embalagem de pipoca doce. 
Uma embalagem de pipoca doce.
O plástico havia sumido. Seu refúgio fora embora, era tempo.
Entrou no ônibus, sentou-se ao lado de uma janela e procurou na embalagem o plástico. Em vão. Fechou os olhos e cochilou. Acordou no ponto onde devia descer. Desceu, caminhou para sua casa, entrou, sentou-se no sofá. 
Observou todos em sua casa e questionou-se:
-Onde estive?
 
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Ederson Oliveira
(in)certeza
Escrito por Ederson Oliveira


Eu não sei de nada e foi nessa conclusão que eu cheguei na vida.

Não sei quem são as pessoas, elas mudam tanto e de formas tão inesperadas que a gente só pode confiar que, talvez, elas saibam o que estão fazendo. Não sei nada sobre os lugares, que são moldados por pessoas, logo, mudam tanto quanto elas. Não sei nada sobre assunto dos quais eu jurava ser phD, não passo uma conversa sobre eles sem que alguém refute algo óbvio que eu nunca havia percebido. Não sei nada sobre mim, sequer. Não sei afirmar sem a presença de dúvidas o que vou fazer no futuro, quais são os meus objetivos, no que eu acho importante investir. Não sei nem sobre aquilo que já passou. Não sei explicar os motivos que me fizeram tomar decisões contraditórias, não consigo entender atitudes que hoje vejo como absurdamente idiotas e não sei o motivo de mudar tanto de opinião. Não sei nem o que vou almoçar amanhã, e sequer me lembro do jantar de ontem. Muitas pessoas constroem certezas e regras que, sinceramente, não servem para nada. A única certeza eu tenho é que as minhas dúvidas não precisam ser vistas como coisas ruins ou como fontes de ansiedades. Não saber de nada (mas saber que não sei de nada) é que o faz com que eu ande pra frente e não fique parado nesse mar sem ventos das certezas.

"a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza"