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Júnior Dihl
Talvez
Escrito por Júnior Dihl


Diriam, sem sombra de dúvidas
Que estou louco
Louco. Sem meio, sem quase
Apenas e tão certamente, louco
E, de tanto que diriam
Talvez me convencessem, talvez não
Talvez eu os convencesse do contrário
Talvez desse a certeza que esperavam
Se eu falasse de amor
Se eu falasse de carinho
De rancor, ódio, ou se de nada falasse
Ainda assim diriam que estou louco
Talvez por apenas sonhar
Talvez por escancarar estes sonhos
Talvez por viver os sonhos de muitos
Contudo, a única verdade aqui escrita
É que diriam que estou louco
Quem sabe, até, sem saber definir a loucura
Mas como em quase tudo hoje em dia
Apontariam o dedo, tantos juntos
Sem saber o porquê, sem saber
Se o que dizem é certo
Se o que apontam é certo
Ou se o certo é o que dizem e o que apontam
Talvez a loucura se defina nas perguntas
Talvez se defina nas respostas
Talvez eu, de fato, enlouqueça
Com suas perguntas e respostas.


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Amanda Lindner
Um pouco do sem pé nem cabeça
Escrito por Amanda Lindner


Sobre aqueles dias que você abre os olhos e se dá conta de que não está na sua cama. Sobre esse tremor nas pernas e esse frio na boca do estômago com pausa no pâncreas de ser dono do seu caminho. Sobre a capacidade de encarar seu reflexo e segurá-lo por dez segundos; ou sobre você chegar aos 8seg e agradecer pela evolução do dia e irromperem palmas no peito pelo pequeno mérito individual e solitário. Este é sobre o café da manhã que esqueceu e deixou ferver mas estava seu tempo de refazer pois precisava tirar a mancha de pasta de dente nas costas da camisa e ainda procurar a terceira página da pauta daquela reunião importante que impressionaria o chefe que provavelmente lhe renderia uma pequena promoção mas a impressora esqueceu de lhe contar que não funcionaria e agora você não sabe o que fazer porque está atrasado e jurando nunca mais aceitar o ‘só mais cinco minutos’ do seu subconsciente irresponsável. É sobre os próximos cafés que tomará com calma e que fará descalça ainda de pijama sem pensar naquele funcionário medíocre que não consegue passar um dia sem lhe abusar com os olhos. Sobre a recusa em não parar no bar a duas quadras de casa na sexta depois do expediente e encher a cara e despejar o atual estado desgraçado da sua vida no garçom que também tem o próprio estado de vida desgraçada mas lhe conta como descobriu a árvore atrás do estacionamento, e você fica imaginando que esta pode vir a calhar caso acrescente uma corda e um banquinho a paisagem. Sobre saber acatar críticas construtivas e saber o que fazer com elas. Sobre gargalhar da piada da vizinha que lhe ofereceu bolo porque notou que não consegue comer algo decente há dias por que não tem tempo e você ficou feliz em saber que alguém se importa contigo. Sobre ter tempo, pra você, pra quem gosta de você, pra quem se importa com você, pro seu cachorro, pro bom dia do menino que te entrega o jornal, pro seu tio-avô, pro seu vizinho, pro seu mecânico, pra motorista do ônibus, pro senhorzinho que gosta de aparar o jardim as quintas de manhã. Sobre saber seguir em frente depois de abrir o envelope e pintar a parede do quarto de visitas de amarelo e descobrir que o sonho esvaiu-se.  Sobre aceitar as escolhas erradas, e sobre aceitar os acontecimentos ruins como experiência. Sobre aceitar sua própria pequenez. Sobre saber que algumas coisas não lhe fazem melhor que ninguém, somente singular e isso nem é tão importante assim; sabes, às vezes a singularidade é supervalorizada. Sobre a insistência alheia em obrigá-la a provar seu valor e competência só pelo fato de não ter algo balançando entre as pernas. Sobre saber quais sonhos valem as consequências. Sobre escolher ser algo mesmo não querendo mas o faz ser pois prefere doar-se a ferir. Sobre saber deixar desmorar do peito o que queria que morasse ali eternamente mais 7km. Sobre aceitar o fato de seu pai ter lhe obrigado a cursar aquela universidade porque estava tentando aproveitar seu potencial; e a sua infantilidade deixaram turvas as melhores decisões. Ou se lhe privaram de algumas regalias e rebeldias e fantasias porque não eram necessárias e no fim se arrependeria da anarquia que não lhe traria nada além de folia. Um pouco sobre gente que a gente não sabe viver sem porque esqueceu-se de como a vida era antes dessa gente toda te ensinar como beber e como colocar sal na batata frita e como escutar aquela música e inventar uma história digna dos aplausos da sua avó maluca que conta cada história mirabolante e olha que ouvira só a introdução na cantina da faculdade enquanto lhe esquentava os dedos no pescoço daquela gente que você não sabe mais viver sem porque sua vida é bem mais bonita e mais divertida com a gente, no plural, quase como eu e você. Sobre abraços que são exclusivos e que lhe abraçam não só o corpo mas a alma também, que adora e salta de prazer dentro do peito e você sabe e sai pulando de alegria trazendo pra fora do peito porque no final das contas é o único jeito de extravasar a sorte de ter essa gente no seu caminho. Sobre coisas pequenas que significaram atos grandes. O que era pra ser sobre ombros, mãos, tato; mas acabou também sendo sobre ideias, gestos, experiência, fome, medo; sobre ter agora e dester no instante seguinte, encontrar depois de desencontrar encanto conquanto tanto descanto que acabou em pranto que deu-se em afeto decerto que o incerto fosse mais desperto que o aberto do teu riso e eu gosto tanto quando tudo acaba em riso - principalmente o teu - e que o desencanto parece distante tanto quanto aquela historia sobre elevadores que eu tenho medo e você diz que estatisticamente e com um pouco de sorte ou talvez também por você crer tanto que não vai acontecer comigo; talvez meio a toda essa confusão, o Universo (Ah, meu caro Universo... estás de tamanha exuberância esta manhã) queira me tratar com maior bem querer.

 

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Henrique Rodrigues Reis
Não sabemos viver...
Escrito por Rique
 
A comida, o conforto, a família...
Sabemos que tudo isso vale.
Sabemos também, que sem isso,
seria difícil viver.
 
No entanto, focados nos prazeres próprios
vindos de algo material, desvalorizamos o
que nos trás a felicidade, temporária, claro, e
passamos a necessitar apenas daquilo que gera
o famoso dinheiro.
 
Tudo aquilo que nos emociona e até nos inspira, 
aprendemos que, por conta do ''dinheiro'',
existe apenas em filmes, desenhos e etc.
 
Pois o que há dentro deles, é algo planejado,
não baseado em consequências, e nem em sentimentos,
simplesmente, planejado.
 
Sobretudo, no fundo, tentamos hipócritamente
descordar a descordância sobre a nossa opinião.
É engraçado, pois propriamente dizendo, o material,
passou a valer mais do que os sentimentos. Por que
ele gera algo dentro de nós, mas também, nos prende a ele.
 
Colocamos então, nossas vidas, nosso corpo,
nosso cansaço nas mãos de um simples papel verde,
que irônicamente, custa uma vida nos dias de hoje.
 
 
 
 
 
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Amanda Lindner
Sobre transcender-se outrem
Escrito por Amanda Lindner

Minha introversão cruzou a sua extroversão da mesma forma que cruza com qualquer outra na rua, mas ambas entraram na terceira porta do lado esquerdo daquele prédio bonito de fachada antiga da dita rua que minha introversão escolheu para cruzar com sua extroversão, como com qualquer outra. Entrei, pois precisava aprender; enquanto você, substituir. Havia uma confusão apegada a ti, quando lhe conheci; e soube que você havia se embrenhado na dita confusão, tornando-a mais confusa ainda. Também soube que a confusão superestimava o fascínio da sua extroversão e quando você resolveu desfacinar-se, ela desdobrou-se em caos. Eu observei a confusão evoluir-se a caos. Participara, e escrevia sobre a confusão que me arraigara, que me embrenhara e o fascínio que superestimava; e a sua confusão lia e consentia e estendia-se em tristeza, fazendo olhos lacrimejarem e espírito confundir-se. E eu continuava a escrever, pois também havia desfacínio outrem a desvencilhar-me. E eu, prosseguia escrevendo a sua confusão sobre a minha extroversão e você soube e creu ser belo.

No que minha introversão passou a cruzar sua extroversão, ainda que relutante, mas tornando-se contígua, conhecia a superfície que você permitia mostrar-se pouco a pouco. Lembro-me que era entre minhas três colheres de açúcar no café já doce e a sua xícara com chá quente e adoçante; também lembro que depois de outro tempo, era entre as minhas torradas com patê e sua bolacha integral com mel. E eu conhecia suas preferências enquanto apontava-lhe coisa ou outra sobre as minhas, e então sua experiência respondia indicando a minha inexperiência a bossa nova de percepções, paladares, palpitações, exclamações, aversões e contundia-me ideias que eu discordava, mas estava lá para aprender e você substituir, e então cada um fazia a sua parte e meu espírito ria e achegava ao seu. Foi quando passou a me apontar futuro, e eu a enfrentar o desafio do mérito a torná-lo meu. E nos ouvíamos, e sentíamos o tempo passar, e eu a aprender e você a substituir.

E então, chuva. E eu, só. E sua extroversão cruzou minha introversão não da forma que cruza com qualquer outra na rua. E ofereceu-me um lugar no seu lugar, mas por um tempo e por uma distância ambos curtos, muito curtos. Daqui, prali. Tu ofereceste, e não declinei. E me apresentou seu álbum, e dizia-me ‘escute, mas deitada na areia, ouvindo também o mar, com olhos fechados’. E eu os fechei, no seu lugar mesmo, e coloquei-me na areia, como disseste, e ouvia o mar, como exigiste. E senti. Cada atroar de liberdade e calmaria. Então passou. ‘Chegamos?’. Despertava-me do impasse entre utopia e fatos; e afirmei. Mas a sua extroversão pulsou minha introversão, e quando se descobriu pulsando minha introversão, sorriu; por enfim desmascarar-se por um tempo e uma distância ambos curtos, muito curtos.

Tempos, tornava-se mais longo. Colheres de açúcar, substituídas. Distância, serenada. E o lugar, pleno. E a extroversão escancarava-se a introversão que descobria tal ato belo e abria-se também. E foi-se, ambas rindo da dádiva da circunstância de um cruzar qualquer na rua, e meio a esse riso todo, tornaram-no questão de pele. Sabes, quando a alma sente extravasar-se, termina em pele. Conclui-se que o íntimo, que também tinha a sua pitada de irresponsável, deveria ser formalizado com troca: seu moletom pelo meu vestir-se, para prosseguir tu em mim. Mas, dera-me ao pé do ouvido, também palavras: As coisas certas e extraordinárias que conquistará, declinará seu fracasso; e terá a sensação deveras indescritível de saber que necessitava de algo que ainda não conhecia. Eu as guardei do lado esquerdo do peito, onde tantas vezes pousaria os lábios.

Foi quando sua extroversão sumiu, desapareceu, escafedeu-se e não deixara notícias. E eu passava o tempo a aguardar seu cartão postal debaixo do tapete da porta que dá pro andar daquela senhora que tinha uma vitrola que sempre tocava Tom Jobim que eu gosto, e você conhecia, e cantava baixinho no meu ouvido enquanto emaranhados um no outro na sacada embaixo do peitoril da janela do meu quarto. Eu passava os dias observando a cozinha vazia, esperando chegar e fazer café na cafeteira vermelha que ficava em cima daquele balcão que insistia em entrar no meu caminho e que você me lembrava de não trombar nele. Eu guardava o cheiro do seu café, tua desinquietação e o tom que contava aquelas piadas esdrúxulas que me faziam rir até a barriga doer.

Mas, chegou o meu tempo. Tampouco do jeito que eu almejava, pois chegou só, sem trazer-lhe a tiracolo. Mas chegou e eu aceitei. Então, fiz o que você sugeriu.

Peguei minhas coisas, que também eram um pouco suas e guardei-as nas malas, e saí pela porta dos fundos, vestindo o seu moletom e com o Converse que me deu nos pés. E a única coisa em que eu pensava enquanto entrava no carro e pegava a rodovia, era nos seus braços em torno do meu corpo e a sua voz acarinhando meu ouvido esquerdo: ‘Estou orgulhoso, você conseguiu alcançar a sua coisa certa e extraordinária’. Sentia cada célula do meu corpo clamando a minha liberdade de espírito na mesma intensidade que o cárcere da vontade de você. Não sabia que precisava tanto de algo que nunca havia experimentado até sentir; e esperava que estivesse sentindo a mesma coisa que sentira quando alcançou a sua coisa certa e extraordinária.

Estava amanhecendo, e eu estendi a toalha sob a areia e vesti seu moletom e descalcei. Deitei-me e coloquei a música e fechei os olhos. Era o seu álbum, o nosso álbum. E o meu mar, e o teu som. Mas não era o seu corpo contra o meu, suas mãos nas minhas pernas, seu riso na minha orelha. No lugar disso, havia o vazio. E a nossa música. E o meu mar. E o meu corpo clamando o seu. E minha alma aprendendo a sobreviver sem a sua. E o meu medo de não saber resistir a sua ausência. Mas eu não sabia outra coisa, somente permanecer. E o tempo, que almejava curto, parecia estender-se. O café, esquecido. Distâncias, silêncio. E o lugar, vazio. Mas eu estava para aprender; você substituir.

No fim, transcendeu-se minha introversão a sua extroversão. Desistira de lembrar-se como fora dantes extroversão tão aquilatada, pois levava pedaços de ti arraigada ao peito tanto quanto se desfizera de outros pedaços de ti extirpados do peito que sentira o seu, que fora tão teu. Soube manter-se, reestruturar-se, fazer-se do pouco que lhe restara. Sentindo tanto do que tivera quanto. No fim, transcendeu-se de ti para formar-me a mim.

 

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Henrique Rodrigues Reis
Mentira Vs Caráter
Escrito por Rique
Muitas vezes, usada sem pensar,
para o bem. Quase sempre para o mal,
e também, para uma vitória disfarçada de
resultados temporários.
 
Quando manifestada, torna-se
um relógio. Pois com o tempo,
se espalha, e dispersa do rumo seus
donos. Propriamente dita, é amiga
da irônia, do medo, e de tudo
que origina-se de uma vitória, que
perdeu a guerra.
 
Com o objetivo de obter o
inalcançável, a mentira atua,
sem dó, e ao seu lado, a disposição
para retirar do caminho, qualquer um que
interfira em seus planejamentos.
 
Ela existirá  por muito tempo, mas sofrerá,
por ser indesejada a quem possui um caráter vitalício.
Inaceitável por aqueles que não a temem, ela foge,
se entregando a verdade, acompanhada de valores
maiores.
 
 
 
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Isadora Lins
Chico Buarque - Construção
Escrito por Isadora Lins