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Amanda Lindner
Breve pelo desenquietar-se
Escrito por Amanda Lindner

Abriu-me a imensidão, o ribombar do peito. Confabulou-me o ínfimo.
Foste e voltara, foste e voltara. Tornou-me a ir e voltar.
Ficaste.
Pôs meu lado esquerdo em desordem, embriagou-me em caos. Agraciou com ausência de bom senso e fiquei a deslumbrar a beleza da insensatez: fez-me imensa, fez-me plena, fez-me singular, fez-me intrépida.
Talvez, se houvesse me acautelado limites, se houvesse misturado equilíbrio a todo meu torpor desmedido, de toda expectação; talvez doesse menos, talvez descuidasse-me esquecer. Talvez não fosse embora, talvez ousasse ficar.
Deveras, não furtasse meu arbítrio, deveras não ansiasse a queda, deveras não almejasse o despropósito... talvez, o recíproco não fosse banal aos olhos, e não aquecesse o peito.
Portanto, em meio a tanto deveras emaranhado a tanto talvez, lembre-se de contar-me o que lhe aflige a ausência. Ou, queira lembrar-me que meu narcisismo é angustiante.
Que encontre quem lhe acelere o peito.
Que tenha quem lhe furte o riso.
Que se achegue a quem lhe aquente o lado esquerdo.

 

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Manoelle
Borrões de mim
Escrito por Manoelle D'França
                                                                                                                                      Crash, por Silvia Pelissero
 
 
 
 
Quem era eu?
Outrora fui cores
aromas
sabores
de aura forte e vívida
corpo são
e mente híbrida
 
Hoje não mais sou
hoje eu era
ontem eu seria
tanto queria
pouco sabia
 
Vi minhas cores espalhadas
por onde vim
pensei ser aquarela
mas eram borrões
borrões de mim
de volta aos rascunhos
de minhas certezas
extinguindo-me
morrendo em mim mesma
 
Desfazendo-me
em tons negativos
perdendo meus sonhos sensitivos
transformando-me em graxa
em piche
não peixes em lívido cardume
apenas piche
betume
 
Tornando-me estrada
tornando-me a estrada
em que muitos passam
e nunca param
nunca procuram as cores
sobre as quais caminharam.

 
 
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Amanda Lindner
Movimentos
Escrito por Amanda Lindner

Movimento I - Ela

Se minha pele tornasse digna das suas mãos, compor-me-ia em palpitações somente a você.
Se seu sussurro me fizesse cócegas atrás da orelha e minha respiração desluzisse entre arfar e expirar, talvez lhe outorgasse meu aspirar.
Se minha devassidão outrora perder-se ou encontrar-se em seus braços, abdicaria a mim e tornaria a ti.
Se seus lábios risse meu ventre e seus dedos me alegrasse os seios, lhe desvelaria com meu desacerto. Se suas pernas furtasse as minhas dos lençóis, e segredasse o significado de ‘embevecer a vontade’ que dantes, em tempos há tanto esquecido poder-se-ia dizer alheia... ah, meu caro, fazes de mim o que queres.


Movimento II – Dela

E se lhe contassem que ela perdeu-se em outros braços, encantou-se com outros sons? E se tu esbarrasses com ela difundindo-se em outros mares, guiando-se por outras mãos?
E se sem querer, deparasse com ela pousando a cabeça em outro canto, perdendo o fôlego em outros lábios?
E se ouvir pelas suas andanças qualquer coisa sobre aquela lá que tu se vias feliz quando aparecia vez em quando vez em quase nunca e ficava louco pra que voltasse só pra ver-te, estava dançando outros ritmos e satisfeita de todo com outras voltas?
E se tivesse os olhos atraídos sem querer captando outros dedos corrrer pela pele dantes tua, fazendo aquele corpo dantes teu tremer e luzir e sorrir... e se, aquele sorriso todo que tu provocavas fosse aberto a qualquer outra coisa que não você?
E quando sentisse saudade de estar transbordando? Ou de ter seu espaço invadido com todo aquele caos que ela trazia?
Ah, não fazias ideia... se entendesses, talvez teria as respostas.

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Roberta
Unseen
Escrito por Roberta


É igualitário. Involutário.
Todos deixamos marcas nas pessoas que por nós passam.
Todos levamos cicatrizes provocadas por aqueles por quem passamos nessa vida.
Mesmo aquela pessoa que quis tanto estar,
Mas que insistimos em não olhar.

É dolorido. É cômico.
Quando o frio na barriga gela a alma em dessintonia com o coração.
Este que se manteve frio diante do afago do sorriso
Diante do calor das mãos
Diante da fala atropelada que apesar de não dizer,
Gaguejava amor.

Ser um em si mesmo revela o desespero e/ou um sentimento.
Revela a vontade de ser dois em si mesmo.
Revela o que não se queria, o que insistiamos em não olhar.
Mas não cria o que já não havia na sinceridade da alma.

Quantos olhares ansiosos passarão pelo olhar perdido dentro de si mesmo.
Despercebidos.
Até que se note o cantarolar…
O atropelar…
O calor…
Mais uma vez,
Perdidos.

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Patrícia Weber
Studio Brussel: Agnes Obel - Riverside
Escrito por Patrícia Weber

 
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Samira
Avidez
Escrito por Samira Assis



Ah, o costume. Prefiro o desvario. Quase morrer de tanto sonhar. Antes queria que tudo suprisse minha carência. Esperava os amigos ligarem. Esperava que tudo fosse acontecer, de um jeito meu. Queria a serenidade das coisas que nem a mim pertenciam mais. Queria grudar no calendário e voltar ao contrário, andar na tênue relva do passado. Queria a quentura do abraço, de um cara que só queria sexo. Queria abraçar gente que já se foi. Achava que do céu, ia cair tudo, um dia, de sorte haveria de cair no meu quintal. Esperava que as cartas escritas, fossem sempre respondidas. Que Deus atendesse na hora todas minhas preces. Mundo instântaneo, feito comida pronta. Enchi o saco de todo mundo, com problemas que ninguém precisava ouvir. Achei que o sofrimento do mundo estava contido só em mim. Olhei pro próprio umbigo, embora com desespero. Ontem, tinha um varal de "eus" estampado em cada canto. Lágrimas minhas deixando o chão alheio escorregadio. Palavras proferidas no ar, sem nexo nenhum. Paciência. Crescer gera tempo. Hoje sentei no banco, após ter falado tanta merda com os amigos. Não quero coisas caindo aleatoriamente no meu quintal, se acaso cair, as colherei sem pressa. Não preciso que meus amigos liguem, e se ligarem, contarei as boas novas. Beijarei bocas para saboreá-las, como um prato a ser degustado. Quero deslizar os dedos em outros corpos sem inteiramente possui-los. Quero que vá se danar certas formalidades do dia a dia. Meus problemas, enfio dentro de caixas bem tampadas. Deus há de me responder a qualquer hora. Quem morreu, não vai voltar mais, paciência, ficam boas lembranças. As folhas do calendário não voltam depois de arrancadas. Não, nem precisam voltar. Deixa assim. Está tudo sobre controle, nesse banco embaixo do sol.

(Samira Assis)