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Fábio C.
Queermuseu e os dedos nas feridas
Escrito por Fábio C.

Queermuseu

 

A meu ver, qualquer exposição tem por função expor. Se a nossa sociedade é bizarra, por que a exposição não seria? Acobertar situações faz com que elas deixem de existir ou percam força? Não é uma exposição para crianças, pois elas não têm a capacidade de processar as críticas retratadas (assim como muitos adultos também não). Existem muitas coisas do mesmo nível em livros e filmes, então, por que não eclodiram como essa exposição de arte? Simplesmente pelo fato de nem sempre virem "mastigadas", pois pensar dói e é muito mais prático a crítica seguindo a "ondinha".

O que realmente importou (inquietou) nas redes:

1. A imagem do Cristo: 

Todos concordam que é uma representação, certo? Uma simbologia que representa algo pra mim, pra você e para o mundo. O "xis" da questão é a seguinte: o que fizeram e andam fazendo com essa representação em nossa sociedade? Quem ela anda representando? Quantos construíram impérios em cima dessa representação? Quantos mataram, quantos desgovernaram tendo como escudo esse símbolo religioso? O que o artista fez não é nem 0,0001% do que já fizeram e continuam fazendo por aí e ninguém critica porque não enxerga e não questiona. 


2. A zoofilia:

Certa vez, em TV aberta, ouvi um artista relatando sobre iniciações sexuais e brincadeiras com as cabritas da fazenda dele na infância. Todo mundo achou graça. Um outro citou inclusive as galinhas. Ninguém levantou a mão pra dizer que era desumano. Em sites adultos, muitos buscam e muitos produzem esse tipo de conteúdo. Em grupos de whatsapp, muitos compartilham. O "xis" da questão é o seguinte: é uma realidade? Existe em nossa sociedade? Sim, existe, e a obra não "induz à", apenas expõe, e expõe com uma outra representação, mas a interpretação das redes se limitou à "imagem crua". 

 
3. A pedofilia:

É uma questão que precisa vir à tona sempre, só assim será discutida e combatida. É uma prática milenar alimentada por acobertamentos. Não tocar no assunto de nada ajuda. O "xis" da questão é: o alimento da pedofilia é o acobertamento. Ela se mantém viva enquanto escondida. O artista da exposição não induz à pedofilia, ele expõe uma situação de realidade que persiste em existir. Segundo o curador, a obra exposta tem uma outra interpretação que a ondinha das redes desconhece: diz sobre o impacto da colonização no Brasil e a devastação que isso causou.

 
4. O homossexualismo

Foi bem interessante as opiniões acerca do assunto nas redes. Chega-se a conclusão que ainda é um dos principais tabus sociais: não é visto como um direito ou uma opção do ser de "ser". O "xis" da questão é que o homossexualismo foi colocado em meio à situações que envolvem religião, pedofilia e zoofilia propositadamente pelo curador. Observem que as opiniões explanadas pela sociedade em rede colocaram todos os tabus num só pacote, sendo que homossexualidade não deveria ser encarada como uma questão social, mas uma questão estrita do ser. 

 
5. O moleque "viado":

Viado é a palavra mais utilizada em estádios de futebol e escolas que vão do ensino fundamental ao médio. Porque o estranhamento da palavra utilizada em uma obra da exposição? O que o artista fez de diferente? O "xis" da questão é a representação da palavra dentro de questões (ainda sociais) de repressões e preconceitos.
 

6. As hóstias com palavras de conotação sexual:

Aí o ser humano apronta todas, fala da vida alheira, faz o consumo de muitos dos atos representados em palavras que o artista escreveu e, ao comer a hóstia, se sente "o renovado (a)" com garantias de manutenção do plano de financiamento do terreno no céu. Pois é, o "xis" da questão é a hipocrisia humana. Comer uma hóstia não lhe torna melhor ou mais santo que ninguém, só comer a hóstia não basta.

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Essas foram as obras que se destacaram nas redes (apenas um recorte da exposição). É bom pesquisar sobre outras exposições e espetáculos também polêmicos (assim como filmes e livros), que são arquitetados para causar certas inquietações sociais e mexer em feridas abertas que, escondidas por "curativos", nunca saram. Devemos questionar sempre, só assim podemos trazer reflexões sobre coisas ou situações que, muitas das vezes, foram plantadas com o intuito de moldar padrões expostos que acobertam situações desinteressantes que necessitam vir à tona.