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Fernando Costa
Autocrítica de Ressaca
Escrito por Nego Rockhard


Cuspo sangue ao atravessar a rua.

Mais um manhã em pé e caminhando contra 
a própria vontade. Outro assistente inofensivo, 
brincando de querer ser milionário, jogando tempo
e saúde mental no lixo em troca de um atestado
de fodido todo quinto dia útil do mês, assinado 
por um gordo depravado de meia idade qualquer
que lota as filas das casas de swing e puteiros.

Cuspo sangue quando vou mijar.

E o embrulho no estômago me dá alguns segundos
de arrependimento das inúmeras doses destiladas
que preenchem as minhas madrugadas solitárias em
pistas de dança e áreas de fumantes nos finais de semana.

Cuspo sangue no copo d'água, num icônico brinde
a todos os papéis de bêbado otário que eu tenho
interpretado nos últimos meses. Me desculpando
com seguranças e gerentes e cumprimentando 
filhos da puta que nunca foram com a minha cara e
que dão aquele sorriso de merda de quem vai tentar 
roubar a sua garota assim que você virar as costas.

Cuspo sangue na privada enquanto sou colocado 
de joelhos pela ânsia e a tontura e a baixa pressão 
sanguínea dignos da ressaca de um ditador, que se
curva diante do resultado ingrato da vã perseguição 
das suas obsessões infantis.

Descem descarga abaixo toda a esperança que um 
recém embriagado pode ter. Junto com todas as 
bitucas dos cigarros que insistem em fisgar minutos 
provavelmente não preciosos da sua vida.

Junto com todas as mulheres-explosões-estelares
que iluminaram por breves momentos sua tragicômica
existência e depois desapareceram de forma lógica 
na equação medrosa criada por ele mesmo cuja única 
função é afastar qualquer uma que se aproxime
suficientemente pra ver o garoto inseguro atrás da 
nuvem de piadas ruins e histórias inventadas.