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Afonso Sauniére
Comunicação não verbal
Escrito por Afonso Sauniére

(Crônica de Graziela Leite)

Desde que chegou aqui ela não mudou muito, embora tenha observado certa evolução. Como sempre, ela apenas vivia olhando para o vago horizonte. Ninguém sabe ao certo o que se passava em sua mente. Um olhar distante, imenso, como se ela estivesse aprisionada aos seus pensamentos. Repetia sempre o mesmo movimento o dia todo. Seu olhar distante sentada no canto do quarto, movimentando-se para frente e para trás. Clarice (era o nome dela), não se comunicava com ninguém, não se aproximava, ao menos permitia a aproximação de outros.

Sempre tivemos nossas dúvidas com relação a ela, era do tipo de paciente que nunca sabíamos a hora exata de nos aproximarmos. Nunca falava, se quer respondia a nossas perguntas. Sua vida era um verdadeiro mistério, ela era um verdadeiro mistério. Não se sabia absolutamente nada sobre ela. Salvo que havia um número de telefone na sua roupa, obviamente tentamos contato com este número. Era de uma mulher que na verdade dizia ser uma cliente de Clarice. Descobrimos que Clarice era uma advogada muito conceituada. No entanto em relação a sua família ela já não sabia informar.

Clarice chegou aqui suja, uma pobre alma atormentada. A única coisa que dizia era seu nome repetidas e repetidas vezes. A acolhemos e fizemos sua análise, ela então foi diagnosticada com Esquizofrenia. Todas as vezes que cheguei perto de Clarice percebia que ela escondia uma profunda tristeza e, é claro, rejeição. Levou tempo para que ela permitisse que alguém chegasse perto. Ela chegou muito machucada. Seu corpo apresentava indícios de ter sido violentada, talvez isso explicasse sua rejeição mediante a aproximação de todos. Foi um processo longo e difícil. Todas as vezes que tentei aproximação ela sempre se afastava como se fugisse de mim. Sempre tentei fazer com que ela respondesse às minhas perguntas, mas nunca dizia nada, nenhum gesto afirmativo ou negativo.

Sabíamos que saber sobre sua vida seria essencial para seu tratamento, mas não tínhamos como. Dias se passaram e começamos a perceber que uma mulher observava Clarice (as vezes que ela se permitia sair). Então, em um determinado dia lhes perguntei por que a observava tanto. Logo respondeu que a havia conhecido e contou-me a história de Clarice. Disse que ela de fato era advogada, era casada e seu sonho era ter um filho, porém, sem saber as razões, seu marido não queria. Ainda assim ela engravidou e logo abortou o filho que tanto queria, espontaneamente, após uma briga com marido, logo quando anunciou sua gravidez. Então se divorciou. Com relação aos outros parentes, Clarice não se comunicava com eles, não tinha um bom relacionamento. Acabou se trancando em um apartamento e, não se permitindo mais trabalhar, acabou com todas suas economias. Despejada, sem ter onde morar vagou pelas ruas. Terminou dizendo que soube de Clarice depois que ela estava aqui no hospital, por acaso a viu quando passou por aqui. Agradeci por tudo que contou e, em seguida, foi embora.

Logo em seguida, fui até Clarice. Tentei perguntar sobre sua vida novamente. Dessa vez apresentava-se ainda mais inquieta. Não queria ouvir. Foi quando então falei do seu filho. Ela olhou profundamente para mim. Percebi que Clarice se lembrava de sua vida. Mas sua dor não deixava que ela falasse sobre esta. Depois que falei, seu olhar e sua expressão de sofrimento pairavam sobre mim. Senti que toquei na sua profunda ferida. Então a abracei. Pela primeira vez, ela permitiu uma aproximação de fato concreta e afetiva. Não podia dizer mais nada, pois aquele momento já falava por si só. Aquele olhar de Clarice entregou toda sua história, toda sua vida, que tantas outras vezes não pude perceber. O toque daquele abraço junto com sofrimento dela ressentido há tanto tempo, me fez perceber que não precisava de muito para quebrar aquela barreira posta a nós.

Nem é preciso dizer que após aquele dia nunca mais fui a mesma. Clarice voltou a falar, poderia até dizer que reaprendeu, fez seções com fonoaudiólogo. Mas enquanto adaptava-se a falar, novamente e normalmente como antes, escrevia. Infelizmente não posso dizer que se recuperou totalmente da patologia, porém houve um grande avanço, pois já não apresentava mais quadros de alucinações ou delírios. Já era possível comunicar-se melhor. Certa vez ela me mostrou uma frase que dizia: “Permiti-me, um dia, me aprisionar na insanidade, para fugir da dor”.