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Ederson Oliveira
Carta
Escrito por Ederson Oliveira

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É, já faz um ano que não escrevo nada. Muita coisa mudou, mas ainda está tudo igual. Mudaram as pessoas que tenho que ver todo dia, a atendente daquele bar que a gente ia nas sextas e até o aquele meu jeito que você achava engraçado de amarrar o cadarço do all-star. O que resistiu a esse tempo? A mania de sempre sair de casa com um bloquinho e escrever as bobagens que penso na rua. Só que um pouco da graça desse hábito foi embora junto com você. Parte importante do ritual era chegar, te mostrar a “produção” do dia e agüentar seus deboches – dos quais sinto falta. Qualquer dia te mando as coisas que escrevi. Na verdade, é provável que não mande. Não saberia lidar com o fato de não conseguir ver as suas reações ao lê-las. É estranho encontrar com seus amigos e não ter notícias suas pra dar. Não saber onde vive, com quem anda ou que tipo de música anda ouvindo. A propósito, distribui entre eles aquela coleção conjunta de vinis que tínhamos. Cada um mais lindo que o outro, cheios de histórias. Como aquele do Nirvana que você colocava pra ir animando a galera que ia lá em casa antes de parar em um boteco qualquer, ou aquele do Chico Buarque que já deveria estar cansado de embalar as tardes preguiçosas de domingo. Dei todos. Entenda, era difícil ter que olhar e lembrar de tudo que não vai acontecer de novo.
Deve estar estranho eu ter digitado isso, ao invés de escrever. Logo eu, o “ultrapassado averso a qualquer tipo de avanço tecnológico”. Pois é, aprendi que nas horas de solidão esses avanços servem pra te enganar e te iludir a respeito dessa condição. Me fazem não me sentir só, apesar de estar. Talvez e-mails e mensagens sejam efêmeros demais, e não quero ser mais um ao lado de spam de loja de eletrodomestico.
É isso, agora vou ter que sair e fingir que não estou com saudade e que talvez você volte e que talvez eu consiga escrever de novo. Ou esperando que, quem sabe, você me responda pela primeira vez. 
 
 
"Com carinho, R"    (18 de junho de 2011)