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Amanda Lindner
Um pouco do sem pé nem cabeça
Escrito por Amanda Lindner


Sobre aqueles dias que você abre os olhos e se dá conta de que não está na sua cama. Sobre esse tremor nas pernas e esse frio na boca do estômago com pausa no pâncreas de ser dono do seu caminho. Sobre a capacidade de encarar seu reflexo e segurá-lo por dez segundos; ou sobre você chegar aos 8seg e agradecer pela evolução do dia e irromperem palmas no peito pelo pequeno mérito individual e solitário. Este é sobre o café da manhã que esqueceu e deixou ferver mas estava seu tempo de refazer pois precisava tirar a mancha de pasta de dente nas costas da camisa e ainda procurar a terceira página da pauta daquela reunião importante que impressionaria o chefe que provavelmente lhe renderia uma pequena promoção mas a impressora esqueceu de lhe contar que não funcionaria e agora você não sabe o que fazer porque está atrasado e jurando nunca mais aceitar o ‘só mais cinco minutos’ do seu subconsciente irresponsável. É sobre os próximos cafés que tomará com calma e que fará descalça ainda de pijama sem pensar naquele funcionário medíocre que não consegue passar um dia sem lhe abusar com os olhos. Sobre a recusa em não parar no bar a duas quadras de casa na sexta depois do expediente e encher a cara e despejar o atual estado desgraçado da sua vida no garçom que também tem o próprio estado de vida desgraçada mas lhe conta como descobriu a árvore atrás do estacionamento, e você fica imaginando que esta pode vir a calhar caso acrescente uma corda e um banquinho a paisagem. Sobre saber acatar críticas construtivas e saber o que fazer com elas. Sobre gargalhar da piada da vizinha que lhe ofereceu bolo porque notou que não consegue comer algo decente há dias por que não tem tempo e você ficou feliz em saber que alguém se importa contigo. Sobre ter tempo, pra você, pra quem gosta de você, pra quem se importa com você, pro seu cachorro, pro bom dia do menino que te entrega o jornal, pro seu tio-avô, pro seu vizinho, pro seu mecânico, pra motorista do ônibus, pro senhorzinho que gosta de aparar o jardim as quintas de manhã. Sobre saber seguir em frente depois de abrir o envelope e pintar a parede do quarto de visitas de amarelo e descobrir que o sonho esvaiu-se.  Sobre aceitar as escolhas erradas, e sobre aceitar os acontecimentos ruins como experiência. Sobre aceitar sua própria pequenez. Sobre saber que algumas coisas não lhe fazem melhor que ninguém, somente singular e isso nem é tão importante assim; sabes, às vezes a singularidade é supervalorizada. Sobre a insistência alheia em obrigá-la a provar seu valor e competência só pelo fato de não ter algo balançando entre as pernas. Sobre saber quais sonhos valem as consequências. Sobre escolher ser algo mesmo não querendo mas o faz ser pois prefere doar-se a ferir. Sobre saber deixar desmorar do peito o que queria que morasse ali eternamente mais 7km. Sobre aceitar o fato de seu pai ter lhe obrigado a cursar aquela universidade porque estava tentando aproveitar seu potencial; e a sua infantilidade deixaram turvas as melhores decisões. Ou se lhe privaram de algumas regalias e rebeldias e fantasias porque não eram necessárias e no fim se arrependeria da anarquia que não lhe traria nada além de folia. Um pouco sobre gente que a gente não sabe viver sem porque esqueceu-se de como a vida era antes dessa gente toda te ensinar como beber e como colocar sal na batata frita e como escutar aquela música e inventar uma história digna dos aplausos da sua avó maluca que conta cada história mirabolante e olha que ouvira só a introdução na cantina da faculdade enquanto lhe esquentava os dedos no pescoço daquela gente que você não sabe mais viver sem porque sua vida é bem mais bonita e mais divertida com a gente, no plural, quase como eu e você. Sobre abraços que são exclusivos e que lhe abraçam não só o corpo mas a alma também, que adora e salta de prazer dentro do peito e você sabe e sai pulando de alegria trazendo pra fora do peito porque no final das contas é o único jeito de extravasar a sorte de ter essa gente no seu caminho. Sobre coisas pequenas que significaram atos grandes. O que era pra ser sobre ombros, mãos, tato; mas acabou também sendo sobre ideias, gestos, experiência, fome, medo; sobre ter agora e dester no instante seguinte, encontrar depois de desencontrar encanto conquanto tanto descanto que acabou em pranto que deu-se em afeto decerto que o incerto fosse mais desperto que o aberto do teu riso e eu gosto tanto quando tudo acaba em riso - principalmente o teu - e que o desencanto parece distante tanto quanto aquela historia sobre elevadores que eu tenho medo e você diz que estatisticamente e com um pouco de sorte ou talvez também por você crer tanto que não vai acontecer comigo; talvez meio a toda essa confusão, o Universo (Ah, meu caro Universo... estás de tamanha exuberância esta manhã) queira me tratar com maior bem querer.