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Samira
Encontro
Escrito por Samira Assis

encontro

Encontrei-te na margem
Na espuma do meu café
Encontrei-te no parágrafo
No fundo do espelho
Encontrei-te sem mim
Deitado no ventre
Num outro ventre
Ou no tapete
Calado.

Encontrei-te no ensaio
Num quinteto de sopros
Cordas, martelos
Encontrei-te na cadência
A minha preferida
Encontrei-te em coisas tão minhas
Em poemas tão meus

[Amar quem não nos ama
Encontrar quem não nos encontra
Esconder a face
Mergulhar em vergonha
Em entulhos de culpa
Que vira overdose de arte]

Encontrei-te na tempestade
Esperando o táxi
Escorrendo no guarda-chuva
Fugindo de encontrar-te
Encontrei-te em meu sonho
Na minha página preferida
Na minha afinação
Encontrei-te tranquilo
Descansando no meu ódio

Encontrei-te e não queria
Naquela grande fila
Encontrei-te nos olhos do atendente
Nas mãos inexperientes
Nas cortinas do teatro

Depois encontrei-te sarcástico
Rindo do meu poema
Das mãos trêmulas
Das notas falhadas
No piano desafinado
Aplaudindo o fracasso

Encontrei-te...
No meu suspiro...
No meu amor solilóquio.


(Samira Costa de Assis) 
 

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Manoelle
Âmago
Escrito por Manoelle D'França

wild flower1
Wild flower por Aleksej Polyvyanyj


Às vezes, onde selvagem vento sopra,
há mais calmaria que tempestade.
Onde não há batimentos,
é que o sentimento pulsa de verdade.
Onde um sorriso acorda,
é que a dor aflora.

Por vezes, quando se cala
é quando mais se tem a falar.
Quando se chora,
é que o sorriso mais deseja brotar.
Às vezes, quando se vê,
é quando menos se quer enxergar.

Em alguns momentos,
quando dizem ser impossível,
é quando mais se quer alcançar.
Quando alguém se perde,
nem sempre quer se encontrar.

Quando a estrutura desaba,
nem sempre há forças para reconstruir.
Mas quando o mundo parece estar se desfazendo
é que se começa a perceber
que mesmo dentre pedras
mudas podem florescer.

Manoelle D'França | Maphago

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Marisa Oliveira
O Novo Ciclo
Escrito por marisa no céu
 novo ciclo
Unstable - Alexandra Levasseur

volto a escrever
- coisa que, na verdade, nunca parei
mas volto a escrever
com vontade de concluir
e, alguns, publicar
... e volto a desenhar
a rabiscar
a pintar
com mais vontade de colorir
e doar todos

volto aos pranayamas
principalmente aos ásanas
aos mantras e incensos
recondicionamento
retomar a flexibilidade
equilibrar dentro de tanto contraste
buscar sanidade
- ou rebuscar a sanidade
(sei lá.)

volto às cordas e ao canto
caí de novo nesses encantos
como era aos 16
 - e nostálgica como Conversation 16
mas meus dedos nunca perderam seus calos

volto a sentir certa tristeza
e lidar com ela com a mesma destreza
tento até transformar em algo bonito
sem choro, sem grito
e me descubro mais forte de novo
e de novo, e de novo

enfim, tudo mudou
mas nada mudou
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Manoelle
Borrões de mim
Escrito por Manoelle D'França

borroes

Crash, por Silvia Pelissero

 

Quem era eu?
Outrora fui cores
aromas
sabores
de aura forte e vívida
corpo são
e mente híbrida


Hoje não mais sou
hoje eu era
ontem eu seria
tanto queria
pouco sabia

Vi minhas cores espalhadas
por onde vim
pensei ser aquarela
mas eram borrões
borrões de mim
de volta aos rascunhos 
de minhas certezas
extinguindo-me
morrendo em mim mesma


Desfazendo-me
em tons negativos
perdendo meus sonhos sensitivos
transformando-me em graxa
em piche
não peixes em lívido cardume
apenas piche
betume


Tornando-me estrada
tornando-me a estrada
em que muitos passam
e nunca param
nunca procuram as cores
sobre as quais caminharam.


Manoelle D'França

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Fábio C.
O Hiper-realismo de Ron Mueck
Escrito por Fábio C.

ron mueckRon Mueck é um escultor australiano hiper-realista que ultiliza efeitos especiais cinematográficos para criar obras de arte. Embora altamente detalhadas, suas esculturas geralmente eram feitas para serem fotografadas a partir de um ângulo específico, escondendo assim a bagunça da construção vista do outro lado. Aperfeiçoando suas técnicas cada vez mais, hoje Mueck criar obras cada vez mais realistas, perfeitas de todos os ângulos.

A reação perante uma obra de Ron Mueck é de um espanto seguido por uma admiração instintiva (que se dá pela possibilidade de examinarmos os pormenores dos corpos humanos). Será o autor um artista ou apenas um excelente artesão? É o próprio quem se coloca à margem desta polêmica: "Jamais quis ser um escultor. Não sei bem porque faço isto, mas não me imagino a fazer outra coisa. Não me considero um artista, isto é simplesmente a única coisa que sei fazer".

Confira algumas de suas principais obras:

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Gerente
Carta escrita no ano de 2070
Escrito por Yuri

falta de agua

Estamos no ano 2070 e acabo de completar os 50 anos, mas a minha aparência é de alguém de 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo pouca água. creio que me resta pouco tempo. Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade.

Recordo quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente. Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro por cerca de uma hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele. Antes todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira. agora devemos raspar a cabeça para mantê-la limpa sem água. 

Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira. Hoje os meninos não acreditam que a água se utilizava dessa forma. Recordo que havia muitos anúncios que diziam CUIDE DA ÁGUA, só que ninguém lhes ligava; pensávamos que a água jamais podia terminar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Antes a quantidade de água indicada como ideal para beber era oito copos por dia por pessoa adulta. Hoje só posso beber meio copo. 

A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo; tivemos que voltar a usar os poços sépticos (fossas) como no século passado porque as redes de esgotos não se usam por falta de água. A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas, já que não temos a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados. As infecções gastro-intestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte.

A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam-te com água potável em vez de salário. Os assaltos por um galão de água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Pela ressequidade da pele uma jovem de 20 anos parece como se tivesse 40.

Os cientistas investigam, mas não há solução possível. Não se pode fabricar água. O oxigênio também está degradado por falta de árvores o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, como consequência há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações.

O governo já nos cobra pelo ar que respiramos: 137m³ por dia por habitante adulto. As pessoas que não podem pagar são retiradas das "zonas ventiladas", que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar, não são de boa qualidade mas pode-se respirar, a idade média é de 35 anos.

Em alguns países existem manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exército. a água é agora um tesouro muito cobiçado, mais do que o ouro ou os diamantes. Aqui já não há árvores porque quase nunca chove, e quando chega a registrar-se uma precipitação, é de chuva ácida; as estações do ano tem sido severamente transformadas pelos testes atômicos e da industria contaminante do século XX.

Advertiam-se que havia que cuidar o meio ambiente e ninguém fez caso. Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem, descrevo o bonito que eram os bosques, a chuva, as flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse, o quão saudável que as pessoas eram. 

Ela pergunta-me: "papai, porque acabou a água?"; então, sinto um nó na garganta. Não posso deixar de sentir-me culpado, porque pertenço à geração que destruiu o meio ambiente ou simplesmente não tomamos em conta tantos avisos. Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida na terra já não será possível dentro de muito pouco tempo, porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível.

Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto quando ainda podíamos fazer alguma coisa para salvar o nosso planeta terra!


Essa (crônica) está disponível em vários portais da web, tendo sido originalmente retirada da revista biográfica: "Crónicas de los Tiempos".

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Dani Ribeiro
Fragmentos Caseiros
Escrito por Dani Ribeiro

sapatos_velhos
 
 
Surto inopinado
antes do alvor.
Gagueira insiste
não há palavras
Ouve-se vozes
de ratos.
O Queijo podre
lança o golpe.
A formiga
na fila eterna
espera o grão
a migalha
a sujeira
e decompõe-se
junto à matéria
orgânica.
No teto
os cupins
devoram
a roupa
a madeira
a carne
os sentidos.
E Proliferam-se.
Também a água
contamina-se
infiltra-se
na parede
no teto
na veia
e faz mofar
o que era belo
Os moveis
no pó.
A roupa
desgastada.
O sapato sujo
e velho
no chão.
O abandono.
A casa
um porão
fede urina
carniça
perde o viço.
Perdem-se
também
os amores.

Dani R.F.