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Marisa Oliveira
Das Experiências Oníricas II
Escrito por marisa no céu
por Vladimir Kush

 

Desde sempre, sou fã da tal da massa cinzenta. Não falo por inteligência e tal, mas pela função que ela desempenha mesmo. Dentro do cérebro, temos mecanismos que coordenam movimentos, aprendizagem, pensamentos, raciocínios, organismos, armazenamento, dentre outros... E, ainda dentro do cérebro, a memória, se divide em outras memórias; declarativa, não-declarativa, de curto, médio ou longo prazo, de processamento, etc. E dentro das memórias, uma gama quase que infinita de vozes, cheiros, rostos, cores, temperaturas, sensações, palavras, mais uma série de outras coisas. Acho maravilhoso.
 
E, mais curioso do que o funcionamento da memória, o leitor há de concordar, é o da criatividade e o dos sonhos. Principalmente o dos sonhos: cruzar memórias ativas com coisas quase esquecidas, para criar uma realidade totalmente nova e, diferentemente da criatividade, de maneira inconsciente. Incrível.
 
E essa tal realidade totalmente nova me intriga, desde sempre. Pode parecer tolice dizer isso, mas não tenho sonhos normais – sei que ninguém tem – mas o que eu quero dizer com isso é que sonho com coisas tão esquisitas e/ou diferentes, que nem sei como classificar, que não estão nos superestimados dicionários de sonhos e tal. Como quando sonhei com um vilarejo lotado de varais, cheios de calcinhas estampas com músicas religiosas, muitas que eu aprendi quando era criança. O que explica esse tipo de coisa?
 
Mas o que me levou a escrever isso tudo na verdade são os sonhos que tenho com pessoas. Quando sonho com pessoas desconhecidas, fico pensativa porque sei que a pessoa não é desconhecida de fato – em alguma ocasião, ela entrou em minha memória.
 
E quando sonho com pessoas conhecidas, fico mais pensativa ainda, pois normalmente é mais estranho. Mas falo de sonhar com pessoas com as quais não se convive diariamente.  Muda tudo. Sonhar com colegas de classe, amigos queridos, familiares, por mais estranho que possa ser o sonho, acho “justificável”, por causa de tais serem tão presentes em nossas vidas.
 
Porém, sonhar com pessoas conhecidas, mas não chegadas, sendo bom ou ruim o sonho, quase sempre me é esquisito. Vou usar como exemplo o último sonho do qual consigo me lembrar, e que não me sai da cabeça.
 
Sonhei que estava com três amigos, não tão chegados, na cidade em que eu morava, numa casa que deveria ser de um deles. Era madrugada, a TV estava ligada, a gente bebia, fumava, conversava e ria muito. Adormecemos. Quando acordei, lembrei que viajaria para o litoral com minha família no dia seguinte, e descobri que já haviam partido. Um deles, o dono da casa, fazia um café da manhã, ouvindo bossa nova. Enquanto eu estava em frente a um espelho, outro, que acabara de sair do banho, me dizia para ficar tranquila, que eles também iriam, e que eles avisaram meu pai que iam me levar. Ao sair, me deu um beijinho na boca, e nesse momento eu compreendi que éramos um casal no sonho.
 
Acordei sem entender nada (como sempre). Desses três amigos, um deles é mais chegado que os outros, do tipo em que se vê durante a semana, de vez em quando, pra jogar conversa fora, mas não temos tanto convívio, ainda mais depois que mudei de cidade. O segundo, não tão chegado, mas conhecido suficientemente para saber que é uma pessoa bacana, que gosta de coisas bacanas, tem o hábito de ler e escrever, e tals, e praticamente o encontrava só quando saia à noite. E o terceiro, conheço por causa do primeiro, frequentamos um mesmo bar há um bom tempo atrás, mas nunca passamos do que é conveniente quando se encontra um conhecido.
 
No sonho, era com este segundo que eu estava. E eu acho que eu nunca mais vou encará-lo da mesma maneira pois, em alguma realidade diferente dessa, estivemos juntos, nos conhecemos melhor, nos demos bem e compartilhamos coisas boas. Sei que ele não sabe muito sobre mim, e o que eu sei dele é apenas o que ele se deixa mostrar, mas em algum lugar, sei que conheci ele por inteiro. Engraçado é ter essa sensação após ter tido um único sonho, e a única coisa que pode justificar isso é o fato de que o tempo num sonho passa diferente. E volta e meia, sonho com alguém assim, que não é tão presente na minha vida, e acordo com uma impressão diferente do tal. Sei que isso nada tem a ver com estar apaixonada ou algo do gênero, mas sei que em alguma circunstância demos certo. Só acho que os sonhos mexem mais com as pessoas do que deveriam.

 
(ou, pelo menos, mexem mais comigo do que deveriam)


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