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Afonso Sauniére
Tanto a declarar
Escrito por Afonso Sauniére

Quem me dera que os anúncios de liquidação
fossem astros luminosos à vista
e a prazo fosse o tempo que me resta pra dizer
tudo que se entope na garganta.
Tudo que é preciso e, precisamente, não digo
esperando o segundo ato com medo do epílogo.
Já vi que há certas orações que, se não ditas,
o miocárdio sangra até morrer.
Conclusivamente, me declaro
sem tanto a declarar.
É que tem gente que me desassossega
com a fala tanta e leve,
com o gosto bom do mundo.
O gosto que Drummond sentiu.
O gosto que matou Romeu.
Que tanto roga em mim
o doce que o amargo faz
quando eu olho fundo.
Essa gente que deixa um som desafinado,
que inventa as cores de um abril chuvoso
e tudo ouve e tudo vê.
E eu vou contra a poesia
sem hipérbole nem clichê.
Nem vou me anunciar perdido
como se não vivesse sem ela.
Mas o sol ainda nasce naquela brecha
e ainda cabe entre nós dois.
Ainda tem aquele beija-flor no quintal
que tanto enfeitava a tarde.
Ainda tem o vento soprando forte
e eu ainda subo pra ver da janela.
Mesmo assim, eu não disse nada.
É que já são 3 da madrugada
e eu ainda fico pensando nela.