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Fernando Fantin Vono
Neymar e as fofocas futebolísticas

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Neymar como figura pública não é lá grande coisa. Não que não seja influente, haja visto a quantidade de garotos com o moicano igual ao dele, isto o é, apenas não parece querer usar dessa influência para defender opiniões ou ideologias, como o fez Sócrates. São outros tempos e de nada adianta começar uma análise a partir de um pressuposto vanguardista ou reacionário, seja de um grupo ou de uma pessoa, ou então cometeríamos o mesmo erro do FHC sociólogo. Não, o Neymar não se importa com política, e em sua entrevista com Kennedy Alencar, mostrou que prefere evitar questões polêmicas, seu negócio não é falando, mas sim com a bola no pé, e nas publicidades, claro está.

Porém, mesmo evitando escândalos, mesmo se esquivando das ciladas e joguetes, e palpites que armam para ele, é quase que inevitável que o nome do garoto não apareça, pelo menos uma vez por semana, envolvido em alguma polêmica ou especulação.

Dessa vez quem se manifestou foi o cartola corintiano, Andrés Sanchez. Para o presidente, o Santos já deveria ter vendido o jogador, porque a oferta era muito grande, aproximadamente 70 milhões de reais iriam para o clube, e com a renovação do contrato até 2014, além do Santos perder sua porcentagem sobre o direito de imagem, corre o risco de não receber nada pela venda do jogador.

Apesar do comentário ter soado como intragável para os ouvidos santistas, muitos concordaram com a ideia de Andrés, extremamente racionalista, do ponto de vista prático. Por mais que dê vontade de mandar Andrés à merda, sua ideia é perfeitamente entendida como normal, como nada absurda. Aliás, o fato de o Neymar ter ficado é que foi estranho, quando o normal seria ter ido para a Europa. Mas por que a ideia de Andrés não nos soa como uma ofensa, apesar de sentirmos essa pontada no estômago quando a ouvimos? Por que é de se esperar que os craques sejam todos exportados? Por que esperar que essa exportação de matéria prima brasileira seja a galinha dos ovos de ouro dos clubes?

Ora, tudo isso acontece por causa do discurso. Não existe o que seja normal, existe o que é ou não é normalizado. Acontece que é normalizado o modelo utilitarista de pensar as coisas, e também é normalizada a financeirização do futebol. Assim, os analistas esportivos na TV, internet e nos jornais, não conseguem fugir muito do formato de análise que esse modo de ver as coisas proporciona, por isso muitos concordaram com Andrés.

Porém, o que o cartola não consegue entender é que existem outros modelos de pensar, existem outras lógicas e, mais ainda, que o valor das coisas não está em si, no dinheiro que proporcionam, ainda vale muito mais, a honra e o prestígio. Ele não consegue entender que mesmo que o Santos saia sem nada dessa transação, terá valido muito mais o simples fato de ter mantido o Neymar no time.

Pode-se até dizer que o Luis Álvaro agiu com paixão, agiu irracionalmente, mas aí teremos que perguntar o que é a razão, e mais ainda, como ele foi construída. Só que com isso, corre-se o risco de ver que a razão é uma normalização.

Afinal de contas, mesmo nesse esporte extremamente capitalizado, ainda há coisas que contam mais que o dinheiro. Mas talvez Andrés saiba um pouco disso, que dirá da contratação do Adriano? A não ser que o interesse no Adriano fosse apenas nos patrocínios, aí a torcida mais fiel do país estaria muito mal representada.

 
 
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Fernando Fantin Vono
O infelizmente constante debate entre corrupção e impostos...

Comentário meu no artigo Urgência na Saúde, de Paulo Kliass no Correio do Brasil, realmente vale uma mirada. Aproveito o espaço para inserir neste blog o debate imposto X corrupção, e ir na contra-mão da opinião corrente sobre o tema.

"É óbvio que exista a corrupção, não há quem o possa negar. Mas bradar contra os impostos como mecanismo para reduzir a corrupção é, no mínimo, inocência.
Não sejamos, pois, voluntariamente ignorantes (outro nome para inocência desta natureza). A manutenção de um estado de bem estar, como se quer seja o Brasil, carece de tributação que a alimente, e incidindo ela, sobre transações financeiras, por natural movimento, incidirá em quem mais movimentações financeiras realize, os ricos, assim se tornando um sofisticado mecanismo de tributação progressivia. A esse ponto, também se faz óbvio o motivo da guerra que a grande mídia e os setores conservadores da população fazem contra, não a corrupção, mas os impostos."

Em http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/09/o-infelizmente-constante-debate-entre.html
 
 
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Fernando Fantin Vono
Minha cidade subjetiva toda

Aqui e ali, e ainda mais adiante,
Tudo em volta, em cada rua,
Uma familiaridade revive-se no trajeto
E todo um mundo esquecido
Remete uma memória antiga

A casa de madeira está caída,
Mas as pedras do asfalto quente
Parecem estar no exato canto
Eis um lugar alheio ao mundo
Como o devem ser outros tantos

Entretanto, a velhice se disfarça
Na correria das crianças da escola,
São tantas, onde vão parar todas elas,
Nas fábricas de sapatos?
Na tentativa de uma felicidade

Contudo a cidade permanece imune
Avessa à mudança,
sem vislumbre de esquecimento,
parada no tempo,
cheia de novidades fragmentadas
Vai-se e volta-se, esvai-se
Sem saber direito pra onde

Entre o conforto e o desespero
Permanece-se até quando dê,
Talvez para sempre,
Que isso é?
No ritmo caduco
De um ser lentamente,
De um afirmar-se é.

No jornal local, as mesmas cores
Sustentando qual uma muleta
A decrepta turma do sobrenome
Orgulhosa de seu herói aviador
Naufragando no tempo e espaço
Agarrada a um tripé na areia

Entretanto a vida é feita diariamente
Nos bairros que rodeiam,
Em conflitos de bares recentes,
A realidade é plural,
As mulheres parecem cansadas,
Mas são extremamente fortes

Natural parece o desencanto,
De um organizar-se a partir do meio
Que já não é mais centro,
Palco de trapezistas cansativos de pompa
E a cidade é tudo e é solitária
Contudo, se organizam-se um cem número
De ensaios de felicidade

É que lá moram gentes.


Por Fernando Fantin Vono
 
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Fernando Fantin Vono
Das Movimentações Humanas
Entre sete espaços proibidos
Seguindo à seco esperanças mórbidas
Moribundos rebentam sorrateiros
Trabalhando, trabalhando, trabalhando
Quando dá

Uma sucessão de episódios se deu
Qual foi o primeiro, qual o segundo
Vimos passar, por tanto tempo
Imigrantes da falta e do excesso
Caldo azedo que deixou rastro
Pela caminhada mal quisto
Atrapalhando planos de plantio
Foram-nos, ficando

Pouco importou a porta que ficou aberta
Não olha pra trás menino
Seu lugar aqui não é
E o nosso, onde será?
Seguimos este caminhão?
Por aqui ou acolá?

Construções se erguem infinitas
Cimentadas a suor barato
E saudades salgadas que o sol não queimou
E tanta, tanta, plantação e fome
Que não tá no mapa

Rejeitaram-nos lá, aqui com mais violência
Costumávamos cantar, se lembra? E agora?
Quiçá a alegria sempre promessa,
Mas também enganação

Não somos de canto algum,
não temos casa nem nação,
são só nomes, entretanto
somos, somos só ...
esquecimento em valas do trajeto
tanto melhor
que os trejeitos se condenam no concreto
na única concretude de mortes numericamente comunitárias
partilhando as únicas coisas que de graça são,
 
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Fernando Fantin Vono
Crítica do Empreendedorismo
falencia-organizacao

As palavras, assim como os humanos, também possuem história. Elas evoluem, contraem-se, se fundem, migram e até mesmo, chegam a mudar completamente de sentido. E como são extremamente caprichosas, estão muito atentas à moda. Assim, em cada época distinta, uma palavra veste melhor que outra, e se você usar uma palavra fora de moda, com certeza será ridicularizado. Um simples exemplo recente é o caso da antiga palavra “natureza”, que perdeu lugar para “biodiversidade”, uma palavra bem mais feia, porém, mais atual.

O que preocupa, no entanto, não é essa mutabilidade da língua, mas sim o fato de que algumas palavras acabam ficando cada vez mais famosas, vendo-se escritas em mais textos, sendo faladas por mais bocas e fixando-se no imaginário das pessoas de uma maneira dificilmente reversível, e de um modo que passem a estruturar o pensamento humano em geral e, uma vez fixadas nesses lugares, dificilmente serão questionadas. Tal não seria problema se as palavras não fossem abstratas, ao contrário do modo como acabamos de desenhá-las, com sentimentos próprios. Mas as palavras são coisas criadas, escolhidas e difundidas por humanos, principalmente por aqueles que possuem os veículos necessários para fazê-lo. Dessa forma, em alguns casos, a moda que as palavras vestem não é algo casual, mas sim uma escolha arbitrária, feita por quem possui direto interesse no sentido que as palavras e os pensamentos humanos tomarão.

Vejamos o caso dessa palavrinha muito comum de ser ouvida hoje em dia, “empreendedorismo”, perceba o entusiasmo e a vitalidade que a palavra traz. O “empreendedor” é visto como aquele que não tem medo de se arriscar e sabe investir para multiplicar o seu lucro, é trabalhador (mesmo que nunca tenha colocado as mãos na massa), é competente e dedicado à sua empresa, sabe gastar com publicidade, sabe poupar, sabe gerenciar seu negócio, sabe dividir as funções, sabe exigir o máximo de seus empregados (que quer que isso queira dizer) e, muitas vezes começou do zero, ao menos pelo que dizem.

Quando se fala em um empreendedor, remete-se a um quase aventureiro, que se arrisca (claro está, no limite em que o risco não é arriscado), aparece frequentemente descrito como inovador e criativo. Assim, essa palavreta, tão em voga, exerce uma espécie de fascínio, principalmente nas gentes que sonham em acumular alguns bens mas passam por apertos na hora de comprar os bens básicos.

Porém a natureza da cousa, perdão pois aqui não coube biodiversidade, merece ser desnaturalizada. Na realidade, o empreendedor não tem nada de aventureiro, criativo ou artista dos negócios, e sim, é um oportunista pragmático. Para se pensar como empreendedor, tudo deve ser de ordem prática e facilmente resolvível, dinheiro, contas, ações, propaganda, mercadoria e, sobretudo, pessoas, tudo são variáveis da única equação que entendem, onde X é o lucro. Assim, tudo que norteia a vida do empreendedor é o dinheiro, e gozo deste. Em outros tempos, tal mentalidade seria vista como medíocre, porém, com a palavra empreendedor, querem transformar este em ideal de homem. Sem falar que a palavra máscara a verdade das relações empresariais. Não é que o empresário explora seus empregados, ele otimiza a mão de obra e gera empregos, tudo muito bonito. A formiga de hoje não se contenta em matar a cigarra de fome, mas rouba o violão da defunta de diz que cantora era ela.

 

Entretanto, não temos suficiente força para abolir o uso dessa palavra, além do mais, “burguês” seria muito antiquado, apesar de caber. Como já foi aqui dito, as palavras mudam constantemente de sentido, contentemo-nos em “empreender” uma luta para mudar o que palavra “empreendedor” remete em nosso imaginário, por uma outra significação, um tanto mais verdadeira.

 

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/07/critica-do-empreendedorismo.html

 

 
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Fernando Fantin Vono
Oficina OnLine de Roteiro (Dica)
Curso online de roteiro
 
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Fernando Fantin Vono
A fome e seu contrário: uma crônica de embrulhar o estômago

“Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas.”

José Saramago

Em algumas cidades razoavelmente grandes que, para tanto, são repletas de empresas e negócios, Não, esse texto não fala de economia, é comum que se possua uma elite local, afinal, se a maioria da população da cidade trabalha na produção e na venda para Fantin gerar tanto dinheiro, são necessárias pessoas para gozar desse lucro, pois seria uma verdadeira anarquia comunista destinar o resultado da produção a quem de fato produz. Não, as coisas não são assim, essa elite é extremamente necessária à ordem e coesão social, e é imprescindível que, para cumprir sua função social, ridicularize as classes pobres que trabalham para elas. Com essa elite configurada em tal cidade, é necessário instalarem-se locais destinados a elas para que possam utilizar a grande quantidade de dinheiro que possuem, assim, é comum nessas cidades, existirem shoppings centeres, boates, restaurantes finos, Mc donald´s, Habib´s, concessionárias e, então, esses (não)lugares passam a, também, povoar a cidade e, sobretudo, o imaginário das pessoas.

Certa feita, estava passando pela avenida das Nações Unidas em meu trajeto. É uma das principais avenidas de Bauru, no interior de São Paulo. Nessa avenida se localizam, além de uma bela praça, esses (não)lugares destinados à elite da cidade. Era à tarde e o sol, embora forte, estava agradável. Atravessei uma das vias, prestando necessária atenção ao movimento de carros e, percorrendo caminho, me aproximava dos prédios alimentícios, que ficavam em uma ruela paralela à avenida, separada da mesma por apenas um canteiro. Quando em frente do Habib´s, presenciei um episódio que me marcou, e sabemos quando algo marca pela frequência com que a lembrança nos retorna à mente. Uma mulher jovem, de não mais que quarenta anos de idade, estaciona o carro da família ao lado esquerdo da rua, era um carro novo, provavelmente caro, e abre a porta traseira para que os filhos desçam, cuidando em atentar-se ao movimento da rua para que as crianças não sejam atropeladas. Todos fora do carro, a mãe aciona o alarme e a família atravessa a rua rumo à lanchonete que afirmam árabe. Porém, nesse pequeno trajeto, a bela cena familiar é interrompida por um moleque de rua, da mesma idade que as crianças, porém um tanto mais magro e com a pele mais escura. Ô tia, me paga um salgado que eu to com fome. Nesse momento, voltava minha atenção totalmente para a cena, pois a fome sempre foi algo que me intrigou, ainda mais se tratando de uma fome tão pequena, não que fome possa ser pequena, mas pequeno era o faminto. Fiquei esperando a fala da mulher, e ela respondeu, sem tirar os óculos escuros e sem olhar para o moleque, algo que não pude entender pela distância a que estava, mas que não era preciso ser intérprete labial para compreender. O moleque abaixou a cabeça e se virou de costas, a mulher seguiu seu caminho sem alterar a expressão séria, porém apressando o passo e os filhos (menino e menina), um copiou em exatidão a atitude da mãe, o outro demorou-se alguns instantes olhando o moleque, mas depois seguia a mãe. E família continuou com sua tarde feliz, e pediu ao garçom sei lá que Bib esfirra, Bib burguer, Bib salada e empanturrou-se. Disso não falo com propriedade, que lá não estava. O moleque, cá fora, engoliu mais uma porção do seu já tão pequeno orgulho, para enganar seu estômago, e foi novamente pedir que alguém o ajudasse, que estava com fome, somente isso. Lá dentro, a família continuava comendo.

De novo, repito, Não, esse texto não fala de economia.

 

 
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Fernando Fantin Vono
Os gramático reaça sai dus armário
O retrato que mais apropriadamente ilustraria os assuntos de pais e filhos sobre as matérias da escola, ponha-se o leitor a imaginar a cena, é o filho perguntando a um dos pais qual é a conjugação do verbo admoestar no pretérito mais que perfeito para o pronome vós. O pai solicitado, nesse instante fica irritado com a própria ignorância e, ao invés de chamar a si próprio, chama o filho de burro, e conta que na época dele de escola, ele tinha decorado a conjugação de todos os verbos, sabia todas as tabuadas e sabia de cabeça o nome das capitanias hereditárias. Diz que as crianças de hoje são vagabundas e preguiçosas e que o filho está indo à escola para ficar mais burro. Quem nunca presenciou uma cena parecida com esta? 
 
Uma discussão relativamente recente vem ganhando espaço na mídia e entre as pessoas em geral, principalmente depois da distribuição do livro “Por uma vida melhor” da professora Heloísa Ramos, pelo MEC. O livro aborda a existência de variedades linguísticas que diferem da norma culta, e que não são erradas, mas inconvenientes em determinadas ocasiões.
 
A língua não é um fenômeno pronto, rígido, é mutável e inacabada e, sobretudo, relativo. Sua relatividade depende de fatores espaciais (no Pará não se fala igual ao Rio), históricos (o português de 1500 é quase indecifrável para nós do século XXI), culturais e até econômicos. 
 
Porém, pouca gente reflete sobre isso e, por esse motivo, muitas pessoas estão horrorizadas com a medida do MEC. Pelo menos é o que se observa na maioria das opiniões que andam emitindo. Defende-se que se a escola não ensinar o português correto ninguém o fará, dizem que se não ensinarem o português correto as crianças não terão gosto pela literatura clássica e até que, a opinião mais absurda foi impressa pela revista Veja, que a “boa gramática é um mecanismo dos alunos para ascensão social e que a sociolingüística é uma doutrinação de antigas ideologias comunistas, como as medidas do Stalin” (mais ou menos nessas palavras).
 
Todos esse argumentos são reproduzidos mas, se investigados à fundo, não passam de mentiras, ou, no mínimo, hipocrisias. Primeiramente o livro propõe que a escola ensine a norma culta, ninguém está retirando dela esta função, apenas se está incorporando a variedade linguística para ilustrar que existem outras formas de se comunicar que não o português padrão. Em segundo lugar, temos que em décadas do ensino da gramática rígida e decorada, a maioria dos adultos formados não pegou gosto por literatura alguma, quanto mais pela literatura clássica, e muitos desses adultos tem medo de falar em público com receio de serem ridicularizados por não dominarem a norma culta. Com anos de gramática decoreba, pouquíssimas pessoas conseguiram decorar alguma coisa e ainda menos pessoas sabem para que serve o que decoraram. Em terceiro lugar a “boa gramática” de que trata a revista veja, não é nem nunca foi mecanismo de ascensão social, mas justamente o oposto, um eficiente mecanismo de exclusão, na medida em que, quem não a domina, é ridicularizado, é motivo de piada, não tem acesso a empregos formais e, até mesmo, esse é um fator determinante de êxodo escolar. Quanto à questão de serem medidas comunistas, prefiro não ter o trabalho de comentar.
 
 
Mas se esses argumentos são mentiras,caberia perguntar a quem essas mentiras poderiam  interessar. Essa é a questão fundamental para adentrarmos na essência da discussão. A polêmica que o livro gerou se dá justamente porque ele desvenda algo que era quase imperceptível na nossa sociedade, o “preconceito linguístico", que opera da seguinte forma, por se tratar de uma língua de domínio das elites que tiveram a possibilidade de permanecerem na escola por mais tempo, é um mecanismo para desqualificar o “outro” que não domina essa norma padrão, esse outro é geralmente o pobre, o preto, a prostituta, a empregada doméstica, o nordestino, o imigrante, o baiano, o cearense, o pedreiro, o metalúrgico. E essa desqualificação do outro acontece em forma de piadas, na roda de conversa das elites, nas festas e nas confraternizações das gentes ricas.
 
O empenho na luta contra a incorporação da variedade linguística se dá devido ao medo de que se reconheça os mecanismo pelos quais uma elite se mantém como tal, é uma luta pela manutenção de uma ordem que somente favorece ao patrão que paga R$ 500,00 à empregada doméstica para trabalhar 40hs por semana e que, para justificar tal exploração a um salário tão baixo, desqualifica e rebaixa a empregada devido ao português errado que ela fala.
 
Ao incorporar a variedade linguística na proposta curricular, as elites não poderão fazer mais chacota dos nordestinos, corintianos, do Lula, porque aí, tais piadas vão revelar quem é que são os verdadeiros ignorantes.
 
 

Por Fernando Fantin Vono
 
 
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Fernando Fantin Vono
Homofobia, O Medo do Orgasmo do Outro: uma visão antropológica - Parte 2 de 2

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Todas essas visões da mulher que colocamos aqui são visões masculinas acerca da mulher, por isso, desde as primeiras organizações em sociedade***, o homem entende a mulher como uma ameaça à ordem e, por isso, vários mitos, leis, instituições foram criados para oprimir a mulher e suprimir a sua sexualidade ameaçadora. O gozo da mulher (que é o outro) é o maior medo masculino, porque foge de seu controle. Por isso do casamento, do véu, da decepação do clitóris. E é também por isso, que tudo que seja visto como feminino é diminuído, ridicularizado e oprimido. Eis a causa das causas de todos os argumentos contrários às lutas dos movimentos GLBTT e das lutas femininas.

Ainda assim, se poderia duvidar do valor dessa análise para o preconceito contra lésbicas, uma vez que podem possuir características ligadas ao masculino. Mas o preconceito e a causa continuam sendo os mesmos, porque mesmo que se masculizassem ao máximo e perdessem todas as características femininas, continuariam sendo mulheres buscando sua própria e alternativa felicidade, e isso, certos homens não suportam.

Poderíamos nesse ponto perguntar como é possível tamanha ignorância, mas a essa altura, já saberíamos a resposta, o medo de que o outro sendo feliz do modo dele, mostre-me como eu sou infeliz.

***Margaret Meed em seu texto “Sexo e temperamento” aponta casos em que é a mulher quem participa da esfera política e o homem cuida da aparência e é mais doméstico.


Por Fernando Fantin Vono Originalmente, na íntegra em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/05/homofobia-o-medo-do-orgasmo-do-outro.html

 

 
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Fernando Fantin Vono
Homofobia, O Medo do Orgasmo do Outro: uma visão antropológica - Parte 1 de 2

Do que dizer do ser humano, uma coisa sempre há de ser lembrada, é um bicho cultural, que possui consciência de si. A consciência que tem de si só existe na medida em que se relaciona com o outro, dessa alteridade que vai se construindo ser. Ele não é, vai se tornando, e nunca será (acabado). E sua culturalidade, faz com que nada nele seja natural. Um estado de natureza (de inocência) nunca existiu porque a cultura se deu desde que se iniciou a hominização como processo, já nos australopitecos.

Essas constatações (polêmicas que sejam) são, atualmente, princípios de pressuposição necessários para validação qualquer discurso racional acerca do humano. No entanto, não é o que acontece na nossa democracia, em que presenciamos nos aquecidos debates em torno da causa gay, precisamente nas questões do casamento e da homofobia, um discurso embasado na vontade de Deus e no que é natural. Que houvesse uma “vontade de Deus”, que o humano pudesse ser “natural”, ainda assim, nos indagaríamos, o que esses não-gays tem que ver com assuntos que não dizem respeito em nada a eles? Que importância haverá para eles se os gays forem para o inferno ou se comportarem-se como aberrações*?

O leitor desprevenido e apressado pararia a leitura por aqui, acharia este um argumento convincente e responderia que eles (os homofóbicos) não têm nada que ver com esses assuntos que não lhes dizem respeito, que cuidem da vida deles. E isso é uma verdade tão óbvia. Mas esse leitor otimista ficaria sem saber a resposta que quem já viveu o preconceito e a repressão nos daria.

Importa e importa muito, o modo como o outro vive e, sobretudo, o que faz com o sexo dele. Toda a sociedade possui uma organização, ou ao menos elementos, voltada para o controle do sexo alheio, principalmente do feminino. A mulher possui profundidade, seu sexo não é exposto como o masculino, então a mulher é um enigma, não se sabe o que vai encontrar. E a mulher também oferece o risco da castração, com seu conjunto vagina-ânus, assemelhando uma vagina denteado, o homem pode perder sua masculinidade ao perder-se da mulher. Também havendo a castração metafórica, do homem que disvirtua-se das “questões masculinas” para viver a ordem da mulher, que é o amor.**

CONTINUA...

 

Notas:

*O termo aberrações é usado pelos homofóbicos para designar um comportamento que difere do “Normal”. Obviamente não compartilhamos essa mesma visão distorcida da realidade, que essa sim é aberrante.
** Idéias retiradas do Livro “Da horda ao estado: Psicanálise do vínculo social” do Eugene Enriquez.


Por Fernando Fantin Vono Originalmente, na íntegra em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/05/homofobia-o-medo-do-orgasmo-do-outro.html

 

 
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