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Júnior Dihl
Idas e Idas
Escrito por Júnior Dihl

Caberia ao florista da esquina, talvez, testemunhar o beijo, mas não, no olho mágico da porta está registrado o primeiro momento em que seus lábios se tocaram. Poderia ter sido naquele instante de bobeira em que se encontraram no intervalo da escola e ficaram sem ação, apenas um a admirar o outro em segredo, com trocas de gentilezas, elogios e brincadeiras.

Ou, até mesmo, no baile de formatura em que foram separados e uma única música os uniu. Talvez fosse “Love of my life” o que tocava naquele instante, ou, quem sabe, “More than words”, mas pouco importa agora, pois mais do que palavras faltaram para que se declarasse ao amor da sua vida naquela noite, por isso constantemente se prende a tais canções.

Noutro dia, também, em que os dois voltavam da faculdade, ele de carona com ela e ela dando voltas para aumentar o tempo de chegada. Ou quando ela terminou o primeiro namoro e carente foi se consolar no abraço dele. Dormiram e acordaram juntos e mesmo assim não fora neste dia em que se reconheceram apaixonados, e apesar de tudo ela voltou a namorar, mas não durou por muito tempo.

Muito pouco provável que na festa em que ele deu para comemorar a nova fase da vida este beijo acontecesse, pois naquela noite, em seu apartamento, estavam: a namorada e ela. Quase vinte e cinco anos se passaram desde o primeiro encontro, ainda na pracinha do parque que ficava perto de suas casas, e nada de se declararem, nada de beijo, nada além de uma amizade.

Quando nada mais conspirava a favor cada um seguiu seu caminho. E, entre idas e idas, a vida deu tantas voltas que lhes colocou novamente um frente ao outro, sem empecilhos, sem compromissos, sem mesmo saberem se ainda havia vestígios daquele sentimento. Até que numa noite qualquer, ao deixar ela em casa, a história teve um novo início, no olho mágico da porta ficou registrado o primeiro momento em que seus lábios se tocaram.

Até mais.

Júnior Dihl – Poeta & Escritor

@JuniorDihl

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Manoelle
Canário & Carina
Escrito por Manoelle D'França



No topo da colina

Vive uma menina
Preciosa beldade
Bonita Carina.
Menina, me olha
Carina risonha
A altura do monte para mim é peçonha.
Menina Carina
Levante o vestido
Ponha os pés no lago e faça um pedido
Que algum canoeiro a traga consigo
Que a deixe na margem e em tom de perigo
Avise que os pássaros tomam o lugar.
E quando te vir, para ficar contigo
Aprendo a andar ou te ensino a voar.


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Manuella Costa Pires
"Monótono, pacato, aceito, desfeito"
Escrito por Manuella Costa Pires

alt


Sem ato, segundos, até anos
passando tanto tempo
ficando assim sem sentir o vento
amor, não tem
calor, nem por um vintém

O frio na barriga, jamais
aquilo para ela, era pedir de mais
bloqueio, sorteio, tanto faz, para ela não importa
Sorriso de consolação, mais um dia que fecha a porta

Como tudo aquilo era ruim
ela preferia não ter um rim
ter só o que comemorar, tim-tim

O dia da decisão, que coragem
sem o carro na garagem, alegria
uma separação sem emoção
ele não estava mais no seu coração
ali só cabia a razão

Que bom, sem bombom, uma reconstrução
a mulher de volta, a mãe sem revolta
nada a abala de novo
experiência, paciência, a licão do dia
como aquela mulher sorria

Ela finalmente sentia
animada corria, vivia
daquele rosto algumas lágrimas ainda caiam
mas não por ele
era por ela
era a tempestade passando
o dia clareando
uma vida se renovando.

http://devaneiosdamanu.blogspot.com/

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Marisa Oliveira
Amarilis
Escrito por marisa no céu

Abraço Amoroso - Frida KahloAbraço Amoroso - Frida Kahlo
 

e ficou Ísis Maria
tanto tempo de escolha
tanto tempo de espera
pra definir a forma mais sincera
- Ísis Maria era, enfim, a cara dela

Ísis é deusa,
Maria é deusa,
e as duas são força,
mas as duas são flores

por isso,
amar Ísis, amarilis
amarilis amarela,
amar ela, amar Ísis,

amei, amava e nem sabia,
e de qualquer forma amaria;
por isso,
Ísis Maria.

Ísis é mãe do deus dos céus
Maria é mãe do Deus dos céus
as duas são mães na Terra,
personificações da Natureza;
a mãe Terra,
maior concretização que existe do Amor

...e se nascesse antes seria Ísis Maria.
E se nascesse depois Ísis Maria seria.

E eu,
que só dessa vida sei,
sei que por toda vida Ísis amarei;

e, ainda que viessem outras vidas,
sei que por todas elas Ísis eu amaria.

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Fábio C.
#SOMOSTODOSSENSACIONALISTAS
Escrito por Fábio C.
 
Reproduzimos e enfatizamos a depender do que queremos ver.

sensacionalismo

Vivemos uma crise política perdurante que açoita com o cansaço, continuamente, a nossa esperança de dias melhores. Envoltos por dispositivos com ferramentas e recursos socializadores, nos dessocializamos e vemos, a "olho nu", o quão divididos estamos. Batemos no peito em defesa de pontos de vista rasos e ideologias quebradas, defendemos indivíduos indefensáveis e lutamos por ideais fomentados por interesses puramente individuais. Qual a solução quando nós, que somos a solução, não nos enxergamos como solução?

Nossa capacidade resolutiva está atrelada à nossa capacidade de análise crítica, e analisar criticamente nada mais é do que tentar compreender, com justiça e sensibilidade, ações e fatos de maneira conjuntural, levando em conta contextos, processos e realidades. Não é tarefa fácil. No âmbito da política brasileira, as críticas se dividem em duas únicas partes (contra vs a favor), que emanadas por figuras de representativo alcance, dizem de tudo e analisam de nada. Assim, desnorteados, nos confrontamos virtualmente com consequências realmente nada favoráveis à resoluções.

Divididos, enfraquecidos por uma mídia conturbativa (que recorta, expõe o que convém e da forma que lhe convém), perdemos um tempo precioso tratando e discutindo politicagens (trâmites da má conduta de indivíduos na prática política), canalizando energias e recursos para os problemas, sem reflexões. Chamamos a atenção e esquecemos de propor soluções; nos vemos como protagonistas, mas não passamos de meros coadjuvantes, seguindo, coletivamente, o ritmo dos que dominam e querem continuar dominando.

E a solução? Tarda, mas não falha? Enquanto tadarmos, pode falhar inúmeras vezes.

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Fernando Feio
Agente 16
Escrito por Fernando Costa

Definitivamente, ufologia e teorias da conspiração não estão no top 10 assuntos dos quais eu gostaria de falar sobre. Mas confesso que me diverti bastante escrevendo esse texto. Espero que vocês também se divirtam durante a leitura. Abraços! 
 
***

Era uma dessas tardes quentes de São Paulo. Os últimos tempos estavam conturbados. Protestos. Brigas nas ruas. Confrontos entre a polícia e manifestantes. Pode-se dizer que estávamos, no mínimo, distraídos.
No meu escritório, sentado na velha cadeira de couro marrom comprada de um brechó, de janela aberta, eu fumava um Lucky Strike vermelho. Amargamente arrependido de não ter mandado consertar o ar-condicionado quando tive a chance:

- Você deveria ter mandado consertar o ar-condicionado.

Disse Wilson, um pobre coitado de vinte e poucos anos, careca, pardo e magrelo. Meu "Auxiliar Administrativo". Se formou em publicidade e não teve muita sorte nesse setor. Acabou tendo que aceitar o salário e as condições de trabalho de merda que eu ofereço. Não por maldade, mas porque eu vivo quebrado:

- Eu sei, eu sei. Com o dinheiro do próximo caso eu mando arrumar.

Ah, eu não te disse? Sou detetive particular:

- Ótimo. Um tal de Joelson te ligou. Pediu pra retornar com urgência.
- Isso há quanto tempo?
- Hoje de manhã.
- E você só avisa agora?
- Precisava da garantia de que você iria consertar o ar.
- Depois conversamos sobre isso, passa o número dele.

Liguei pro cara. Atendeu no primeiro toque. O número era de telefone fixo. Ele ficou parado ao lado do telefone esperando minha ligação?

- Alô? Joelson? Recebi seu recado. Aqui quem está falando é David, detetive particular. Em que posso te ajudar?

Quando ele respondeu, falou ininterruptamente por cerca de três minutos. Ouvi atentamente. Boquiaberto e chocado. O rapaz estava claramente perturbado. Se identificou como ufólogo, disse ter provas da existência "deles", de como "eles" agiam e que estavam entre nós. O bom e velho papo de quem fritou os miolos com o uso prolongado de alucinógenos. Esperei que ele terminasse de falar pra desligar o telefone na cara dele:

- E aí, o que era? - Peguntou Wilson.
- Um maluco. Falando algo sobre ETs.
- Ele não parecia maluco quando falou comigo.
- Mas era. E eu não sou psiquiatra pra ficar cuidando de doido.
- E se fosse um maluco com dinheiro? Pô, chefe. A gente precisa desse ar-condicionado.

Me joguei na cadeira. Acendi outro Lucky. Faziam 36 graus naquele momento. O garoto estava certo. Peguei o telefone e liguei novamente.

- Rua Pastor Damião, 360, quarto 28 - Foi o que ele disse quando atendeu, seguido de - Venha depressa, por favor, eles estão vin-

E foi interrompido por um som ao fundo. Eu nunca fui bom de ouvido mas parecia muito com o som de alguém derrubando a porra da porta:

- Puta que pariu! - Gritei enquanto pegava meu casaco e corria pro meu Siena. O cigarro ainda na boca.

***

O local era um hotel na Bela Vista, bem perto do meu escritório, voei pela faixa exclusiva de ônibus na Brigadeiro Luis Antonio e cheguei lá em minutos. Deixei uma bala na agulha do meu .38 e desci do carro. Atravessei a rua rapidamente. Um calor da porra e eu de casaco pra esconder o coldre.
Entrei no hotel e a recepção estava vazia. Subi as escadas e entrei no corredor do segundo andar. O lugar estava tomado por um silêncio ensurdecedor. De uma janela aberta no fim do corredor eu conseguia ouvir o som da rua: Motores de ônibus, buzinas de motos, conversas difusas entre as pessoas. Passei pelas portas até chegar no quarto entre o 26 e 30. Quarto 28. Onde Joelson supostamente estava hospedado. A porta estava no chão. Tiro o .38 do coldre e entro:

- Joelson?

Ninguém responde. Caminho pelo quarto. É pequeno, uma cama, uma escrivaninha e um banheiro. Está vazio. Faz um frio absurdamente fora de contexto. Começo a sentir que vou me foder. Verifico a escrivaninha: Documentos, fotografias, mapas, anotações, o telefone que ele usou pra me ligar. Na parede a frente, mais documentos pendurados. O Rapaz viajou fundo.
Ao lado da cama encontrei um retrato de um gordinho de óculos abraçado com uma senhora. "Deve ser ele. E essa provavelmente é a mãe", pensei. Eu observava o retrato quando ouvi uma voz fria, morta, quase robótica, atrás de mim. Minha espinha arrepiou na hora:

- Ele não está mais aqui.

Me virei rapidamente e lá estava ele, enorme, passava os dois metros de altura facilmente. Usava terno e chapéu pretos, óculos escuros e luvas de couro. Que porra é essa.

- Quem é você? - Perguntei.
- Sou o agente 16, da segurança - Ele respondeu mostrando um cartão onde no centro estava escrito com letras grandes "SEGURANÇA" e no canto inferior direito, com letras pequenas, "AGENTE 16" - E preciso que você se retire imediatamente.
- Segurança de onde? E o que você fez com o pobre gordinho que dormia nesse quarto? Não é querendo ser chato, mas ele me deve um conserto de ar-condicionado. Preciso que você o devolva, e se você não devolver... Bom, vou te dar muito mais trabalho do que ele deu. - Eu suava frio, quase tremia enquanto falava -

Então o Agente 16 tirou os óculos e o filho da puta não tinha sobrancelhas e me encarou com os seus olhos anormalmente grandes.

- Você é o detetive David Fletcher não é?
- Isso mesmo.
- Li o seu arquivo no caminho e assumi que você é um homem inteligente. Estou errado?
- Não.
- Então, detetive, eu sugiro que você não faça mais perguntas e saia. Embaixo do travesseiro está todo o dinheiro que ele tinha, considere esse o seu pagamento.

Levantei o travesseiro e tinham duas notas de vinte embaixo dele. Olhei pro Agente 16, queria perguntar se ele estava falando serio, mas ele estava me encarando com aqueles olhos gigantes. Guardei o revólver, acendi um cigarro, coloquei as notas no bolso. O Agente colocou de volta os óculos escuros e ficou imóvel. Passei pelo pequeno espaço da entrada que ele deixou livre, de forma que ficamos constrangedoramente próximos por alguns segundos. Ele me acompanhava com a cabeça. Voltei pelo corredor sem olhar pra trás, sabendo que ele continuava me observando. Já havia descido o primeiro degrau da escada quando ele disse:

- Vá pela sombra, detetive.

Parei por alguns segundos, tentei pensar numa resposta, mas só conseguia pensar em sair daquela situação bizarra.

Desci as escadas sem responder.

***

Com os quarenta reais do Joelson comprei um ventilador usado na Santa Efigênia, que larguei na mesa do Wilson quando voltei.

- Liga isso aí. - Eu disse.
- E aí, como foi lá? Viu algum alien?
- Se eu te contasse você não acreditaria. - Respondi acendendo um cigarro e me jogando na minha cadeira.

Wilson ligou o ventilador. Constatei que ele (o ventilador) não servia pra nada, quase piorava. Era como se estivesse jogando ar quente na minha cara. O que havia acontecido? Então as teorias da conspiração eram reais? Refleti um pouco e não cheguei em nenhuma conclusão aceitável e a verdade era que eu já estava de saco cheio. Foda-se aquele ventilador de merda, foda-se o Joelson, foda-se o Agente 16 e foda-se a ufologia.

Faziam 37 graus em São Paulo e estávamos entrando na semana mais quente do ano.

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Karina Harley
Woodkid - Iron
Escrito por Harley