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Marisa Oliveira
Ressalvas
Escrito por marisa no céu


The Weather Girl I por Alexandra Levasseur


algumas pessoas acham que sou sonsa séria santa
- não sou, e nem era; quero ser só o que não cansa.
rio alto, percebo, bebo, falo palavrão, gosto de fritar
uso salto, revejo, desejo, uso a mão, dispo com o olhar

outras pensam que não tenho coração
porque não me comovi com a última tragédia da televisão
- eu que já chorei por uma judia alemã,
por crianças do Alemão, por bombas no Vietnã

outras juram que eu não sou amada,
porque nem sempre vejo graça
na garça, que é sempre inédita, na proa;
- sou rio, e não rio, nem sorrio a toa

e algumas pessoas levam muito em conta tudo que eu digo;
- saibam que eu não sei nem das coisas que eu lido
e também não sei do que tenho lido,
e nem sempre me dou bem comigo

 

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Ramon Bernardo
Ao meu passado
Escrito por Ramon Bernardo


“Devo-lhe muito!

Ao meu passado devo minha cultura.

Minha sabedoria.

Minha paciência.

E minha ignorância.”

Vagueia menina, nostálgica vida dentro deste quarto. Pegou todos os meninos para cuidar. Cuidou menos de si do que devia. Escreveu seu nome em bocas sujas. Esqueceu-se de lavar a sua boca antes de proferir seu próprio nome. Se já se sentes envergonhada com o caos que lhe caiu em vida, já não se sentes magoada por todos quantos deitados em sua cama morderam parte do seu futuro.

Mas quem quer saber de futuro? Perguntas do que vem pela frente são tolas, quando se teme o presente e não se esquece de o que se viveu. Não lhe deve contas! Não deve nada ao seu futuro, embora saiba que é dele a incerteza capaz de assombrar os homens.

Ao seu presente deve menos! Seu presente é deitar-se. Abrir-se. Não ousa sentir-se coitada! É boa demais para isso. Para lastimasses.

Ao seu passado deve-lhe tudo. Deve sua força, e sua fraqueza. Deve o medo de monstros e de homens. Sobre tudo de homens. Deve menos ontem, do que deverá amanha. O passado acrescido de juros diários é a regra vital de esse inóspito viver.

Essa menina é alguém que não ouso dizer o nome. Ela é dona de uma grande casa e de muitos filhos. Mas não é dona de si. Só é dona de seu passado, e nada mais lhe resta.

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Ramon Bernardo
Viver Sem Tempos Mortos
Escrito por Ramon Bernardo

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Manuella Costa Pires
"Instantâneo"
Escrito por Manu Pires

Momentos de delírio, chega de martírio 
Pessoas, felicidade sem cumplicidade
Onda que contagia e só se vê orgia.

Ali lágrimas parecem não existir
juntos dançando, só querem se divertir.

O que vem depois não importa
agindo todos soltos, você concorda
leves deixam o corpo, você acorda

Como se em cinco dias tudo fosse melhorar
mas minutos depois tudo vai desabar

é bom, diferente, inusitado
com tom, envolvente e fica marcado

Você decide a marca, temos três opções:
boa, igual ou ruim

Quase sempre a última se vigora
em poucos dias, é, não demora.

Manu

http://devaneiosdamanu.blogspot.com/

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Patrícia Weber
Belatriz
Escrito por Patrícia Weber

Beatriz era bela. 
Daquelas moças jeitosas, 
com seu vestido florido, 
sua pele alva, 
seus cabelos claros como o céu em dia de verão que 
fazendo par com aqueles olhos, 
a deixava ainda mais reluzente. 
 
Quando menina, 
as primeiras notas de sua vida foram as do piano. 
Antes mesmo de aprender a tocá-lo, 
já se entretinha a brincar com o charmoso instrumento. 
Charmoso como Beatriz tornou-se quando já grande.
 
Sua voz, macia, agradava a todos os ouvidos a que chegava. 
Beatriz tinha um bom gosto para a música. 
Mas não era só as melodias que tinham o privilégio de tê-la como guia, 
a poesia também a tinha. 
Se encontrava nos versos e se perdia, também. 
Passava horas a fio a escrever miliuma estrofe. 

Encantava-se com as histórias dos livros, 
porém, apenas com contos fantásticos
e aquelas ficções cheias de imaginação. 
Não gostava da realidade, não. 
Dizia que o mundo real não a fazia bem, e ainda indagava: 
viver na imaginação, que mal isso tem?!
 
Beatriz, aos dezesseis anos, foi uma exímia bailarina. 
Rodopiava, 
saltitava, 
dava piruetas no chão. 
Durante os três anos de aula, 
dedicou-se às sapatilhas como o utópico se dedica aos seus sonhos.
 
Do palco do ballet, 
foi para o do teatro. 
Beatriz virou atriz. 
Encenou, 
encenou, 
e brincou com a imaginação alheia. 
Brincou de ser várias personalidades, 
achando sê-los de verdade. 
Beatriz acreditava mesmo ser aquela que se vestia.
 
Um dia, vi Beatriz no Teatro Municipal. 
Mais linda não consegui imaginá-la. 
Seus cabelos tornaram-se mais escuros, 
seu corpo mais curvo, 
sua feição mais marcante. 
Tinha tornado-se uma mulher. 
 
Será que ainda com os mesmos devaneios? 
Será que ainda tinha tamanha imaginação?
 
Ah, me leva para sempre, Beatriz.
 
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Ederson Oliveira
Carta
Escrito por Ederson Oliveira

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É, já faz um ano que não escrevo nada. Muita coisa mudou, mas ainda está tudo igual. Mudaram as pessoas que tenho que ver todo dia, a atendente daquele bar que a gente ia nas sextas e até o aquele meu jeito que você achava engraçado de amarrar o cadarço do all-star. O que resistiu a esse tempo? A mania de sempre sair de casa com um bloquinho e escrever as bobagens que penso na rua. Só que um pouco da graça desse hábito foi embora junto com você. Parte importante do ritual era chegar, te mostrar a “produção” do dia e agüentar seus deboches – dos quais sinto falta. Qualquer dia te mando as coisas que escrevi. Na verdade, é provável que não mande. Não saberia lidar com o fato de não conseguir ver as suas reações ao lê-las. É estranho encontrar com seus amigos e não ter notícias suas pra dar. Não saber onde vive, com quem anda ou que tipo de música anda ouvindo. A propósito, distribui entre eles aquela coleção conjunta de vinis que tínhamos. Cada um mais lindo que o outro, cheios de histórias. Como aquele do Nirvana que você colocava pra ir animando a galera que ia lá em casa antes de parar em um boteco qualquer, ou aquele do Chico Buarque que já deveria estar cansado de embalar as tardes preguiçosas de domingo. Dei todos. Entenda, era difícil ter que olhar e lembrar de tudo que não vai acontecer de novo.
Deve estar estranho eu ter digitado isso, ao invés de escrever. Logo eu, o “ultrapassado averso a qualquer tipo de avanço tecnológico”. Pois é, aprendi que nas horas de solidão esses avanços servem pra te enganar e te iludir a respeito dessa condição. Me fazem não me sentir só, apesar de estar. Talvez e-mails e mensagens sejam efêmeros demais, e não quero ser mais um ao lado de spam de loja de eletrodomestico.
É isso, agora vou ter que sair e fingir que não estou com saudade e que talvez você volte e que talvez eu consiga escrever de novo. Ou esperando que, quem sabe, você me responda pela primeira vez. 
 
 
"Com carinho, R"    (18 de junho de 2011)
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Cláudia Banegas
LEVEZA
Escrito por Cláudia Banegas


Meus passos serenos e contritos
levam-se a um destino desconhecido.
Toco as flores, inclino-me ao chão
e pergunto-me: por que não?

Já provei o doce, que eu prove o amargo.
Que o espelho revele minhas rugas suaves
que o tempo tece em minha alma nua.

Sigo só e o barulho do meu silêncio ecoa
revelando-me a leveza da borboleta
que ama dias de sol.

Se estou perto, se estou longe, não importa.
Ninguém sabe ao certo para onde vou.
Sou estrela no céu suspensa que observa-se ao anoitecer.

Sou orvalho da madrugada,
canto dos pássaros ao amanhecer.
Sou o espinho da rubra rosa,
céu lilás ao entardecer.