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Samira
Encontro
Escrito por Samira Assis

encontro

Encontrei-te na margem
Na espuma do meu café
Encontrei-te no parágrafo
No fundo do espelho
Encontrei-te sem mim
Deitado no ventre
Num outro ventre
Ou no tapete
Calado.

Encontrei-te no ensaio
Num quinteto de sopros
Cordas, martelos
Encontrei-te na cadência
A minha preferida
Encontrei-te em coisas tão minhas
Em poemas tão meus

[Amar quem não nos ama
Encontrar quem não nos encontra
Esconder a face
Mergulhar em vergonha
Em entulhos de culpa
Que vira overdose de arte]

Encontrei-te na tempestade
Esperando o táxi
Escorrendo no guarda-chuva
Fugindo de encontrar-te
Encontrei-te em meu sonho
Na minha página preferida
Na minha afinação
Encontrei-te tranquilo
Descansando no meu ódio

Encontrei-te e não queria
Naquela grande fila
Encontrei-te nos olhos do atendente
Nas mãos inexperientes
Nas cortinas do teatro

Depois encontrei-te sarcástico
Rindo do meu poema
Das mãos trêmulas
Das notas falhadas
No piano desafinado
Aplaudindo o fracasso

Encontrei-te...
No meu suspiro...
No meu amor solilóquio.


(Samira Costa de Assis) 
 

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Dani Ribeiro
A Estrangeira
Escrito por Dani Ribeiro

Uma viajante neófita
Revelou seu estado de alma
Era uma estrangeira incalculada
Distante do mundo
Perdida de si

As vozes longínquas
Inalcançáveis que são
E os bairros solitários
Foram só vontade insossa
Da mocidade desperdiçada

Esqueceram-se dela
Pobre mulher pequena
Só corpo esmiuçado
De vaga memória
Uma boniteza estragada

Ninguém se lembrou do tabaco podre
E da garrafa reutilizada
Abandonada, despiu-se da carcaça
Estrangeira que foi
Ao ir embora, desapareceu.

Sou uma estrangeira, distante do mundo, perdida de mim!
 
Dani R.F.

http://suburbanamente.blogspot.com/

 

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Fernando Feio
Concreto
Escrito por Fernando Feio

o concreto é meu braço
o concreto são minhas pernas
e minha cabeça.

A gente tem que ser resistente nessa vida
por toda a pixação, as garrafas quebradas
o vômito na madrugada e as transas na parede

O soco de raiva, as lágrimas de decepção
por tudo aquilo que eu vejo e que eu vivo
pelo que me é importante.

Por todo o asfalto que já andei sobre,
todas as faturas de cartão de crédito
que eu me mato pra pagar.

Pelos sonhos que não deixam de ser sonhos
e os fins de noite em que eu me encosto na
parede sorrindo feliz porque alguma coisa deu certo.

Por viver todas as sextas, sábados, domingos,
feriados e carnavais, porque todas as amizades e
histórias se forjam nesse processo.

Por cada enquadro, garrafada na cabeçaa e chute no saco,
cada mata leão que eu tomei e pedido de desculpa que eu já fiz.

Eu já sou parte disso, eu sou isso.
Sou cada pôr do sol e cada nascer do sol.
Por todos os mometos, sóbrios ou de embriaguez.

Pela planta improvável que cresce contra as
estatíticas num muro pintado de amarelo

Por tudo isso e o que mais for escrito de histária
nesse mar de tijolo e todo resto que não foi mencionado aqui.

O concreto
não é que seja perfeito
mas algo de bonito tem.

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Marisa Oliveira
Das Experiências Oníricas II
Escrito por marisa no céu
por Vladimir Kush

 

Desde sempre, sou fã da tal da massa cinzenta. Não falo por inteligência e tal, mas pela função que ela desempenha mesmo. Dentro do cérebro, temos mecanismos que coordenam movimentos, aprendizagem, pensamentos, raciocínios, organismos, armazenamento, dentre outros... E, ainda dentro do cérebro, a memória, se divide em outras memórias; declarativa, não-declarativa, de curto, médio ou longo prazo, de processamento, etc. E dentro das memórias, uma gama quase que infinita de vozes, cheiros, rostos, cores, temperaturas, sensações, palavras, mais uma série de outras coisas. Acho maravilhoso.
 
E, mais curioso do que o funcionamento da memória, o leitor há de concordar, é o da criatividade e o dos sonhos. Principalmente o dos sonhos: cruzar memórias ativas com coisas quase esquecidas, para criar uma realidade totalmente nova e, diferentemente da criatividade, de maneira inconsciente. Incrível.
 
E essa tal realidade totalmente nova me intriga, desde sempre. Pode parecer tolice dizer isso, mas não tenho sonhos normais – sei que ninguém tem – mas o que eu quero dizer com isso é que sonho com coisas tão esquisitas e/ou diferentes, que nem sei como classificar, que não estão nos superestimados dicionários de sonhos e tal. Como quando sonhei com um vilarejo lotado de varais, cheios de calcinhas estampas com músicas religiosas, muitas que eu aprendi quando era criança. O que explica esse tipo de coisa?
 
Mas o que me levou a escrever isso tudo na verdade são os sonhos que tenho com pessoas. Quando sonho com pessoas desconhecidas, fico pensativa porque sei que a pessoa não é desconhecida de fato – em alguma ocasião, ela entrou em minha memória.
 
E quando sonho com pessoas conhecidas, fico mais pensativa ainda, pois normalmente é mais estranho. Mas falo de sonhar com pessoas com as quais não se convive diariamente.  Muda tudo. Sonhar com colegas de classe, amigos queridos, familiares, por mais estranho que possa ser o sonho, acho “justificável”, por causa de tais serem tão presentes em nossas vidas.
 
Porém, sonhar com pessoas conhecidas, mas não chegadas, sendo bom ou ruim o sonho, quase sempre me é esquisito. Vou usar como exemplo o último sonho do qual consigo me lembrar, e que não me sai da cabeça.
 
Sonhei que estava com três amigos, não tão chegados, na cidade em que eu morava, numa casa que deveria ser de um deles. Era madrugada, a TV estava ligada, a gente bebia, fumava, conversava e ria muito. Adormecemos. Quando acordei, lembrei que viajaria para o litoral com minha família no dia seguinte, e descobri que já haviam partido. Um deles, o dono da casa, fazia um café da manhã, ouvindo bossa nova. Enquanto eu estava em frente a um espelho, outro, que acabara de sair do banho, me dizia para ficar tranquila, que eles também iriam, e que eles avisaram meu pai que iam me levar. Ao sair, me deu um beijinho na boca, e nesse momento eu compreendi que éramos um casal no sonho.
 
Acordei sem entender nada (como sempre). Desses três amigos, um deles é mais chegado que os outros, do tipo em que se vê durante a semana, de vez em quando, pra jogar conversa fora, mas não temos tanto convívio, ainda mais depois que mudei de cidade. O segundo, não tão chegado, mas conhecido suficientemente para saber que é uma pessoa bacana, que gosta de coisas bacanas, tem o hábito de ler e escrever, e tals, e praticamente o encontrava só quando saia à noite. E o terceiro, conheço por causa do primeiro, frequentamos um mesmo bar há um bom tempo atrás, mas nunca passamos do que é conveniente quando se encontra um conhecido.
 
No sonho, era com este segundo que eu estava. E eu acho que eu nunca mais vou encará-lo da mesma maneira pois, em alguma realidade diferente dessa, estivemos juntos, nos conhecemos melhor, nos demos bem e compartilhamos coisas boas. Sei que ele não sabe muito sobre mim, e o que eu sei dele é apenas o que ele se deixa mostrar, mas em algum lugar, sei que conheci ele por inteiro. Engraçado é ter essa sensação após ter tido um único sonho, e a única coisa que pode justificar isso é o fato de que o tempo num sonho passa diferente. E volta e meia, sonho com alguém assim, que não é tão presente na minha vida, e acordo com uma impressão diferente do tal. Sei que isso nada tem a ver com estar apaixonada ou algo do gênero, mas sei que em alguma circunstância demos certo. Só acho que os sonhos mexem mais com as pessoas do que deveriam.

 
(ou, pelo menos, mexem mais comigo do que deveriam)


mais devaneios em http://formula-do-acaso.blogspot.com.br/ 
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Fábio C.
Curta: A Moça Bonita
Escrito por Fábio C.

Roteiro e direção de Tiago Oliveira.

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Fernando Fantin Vono
Das Movimentações Humanas
Escrito por Fernando Fantin
Entre sete espaços proibidos
Seguindo à seco esperanças mórbidas
Moribundos rebentam sorrateiros
Trabalhando, trabalhando, trabalhando
Quando dá

Uma sucessão de episódios se deu
Qual foi o primeiro, qual o segundo
Vimos passar, por tanto tempo
Imigrantes da falta e do excesso
Caldo azedo que deixou rastro
Pela caminhada mal quisto
Atrapalhando planos de plantio
Foram-nos, ficando

Pouco importou a porta que ficou aberta
Não olha pra trás menino
Seu lugar aqui não é
E o nosso, onde será?
Seguimos este caminhão?
Por aqui ou acolá?

Construções se erguem infinitas
Cimentadas a suor barato
E saudades salgadas que o sol não queimou
E tanta, tanta, plantação e fome
Que não tá no mapa

Rejeitaram-nos lá, aqui com mais violência
Costumávamos cantar, se lembra? E agora?
Quiçá a alegria sempre promessa,
Mas também enganação

Não somos de canto algum,
não temos casa nem nação,
são só nomes, entretanto
somos, somos só ...
esquecimento em valas do trajeto
tanto melhor
que os trejeitos se condenam no concreto
na única concretude de mortes numericamente comunitárias
partilhando as únicas coisas que de graça são,
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Fábio C.
"Quando compramos algo, pagamos com o tempo de vida"...
Escrito por Fábio C.

 
É  preciso criar mundos de felicidade com poucas coisas, com sobriedade. É preciso viver com bagagem leve e não escravizado pela renovação consumista permanente, que obriga a trabalhar, trabalhar e trabalhar para pagar contas que nunca terminam. Não se trata de uma apologia da pobreza, mas de um elogio à sobriedade.