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Marisa Oliveira
High Hopes
Escrito por Marisa in the Sky

O dia que amanheceu azul agora está se acinzentando
e uma garota sentada em sua pseudocama ouvindo High Hopes
imagina uma paródia da realidade.

Ao lado, uma música com um bom riff está tocando
e quão antiga essa música fosse
já ouviu antes, de quem é ela sabe

Toalhas balançam no varal porque está ventando
essa garota com vontade de comer doces
já não sabe se quer saber a Verdade.

Junto com o deja vu, a parte do refrão foi chegando
e do nome dessa música lembrou-se
e de algo inédito doeu uma saudade

As pessoas passam e não imaginam no que ela está pensando
no meio do que não tem centro ela achou-se
e desejou ter outra idade

O chão que parece tabuleiro de xadrez a chuva está molhando
Division Bell ou Pulse, ela está ouvindo novamente High Hopes
ela imagina que o sonho esteja à mesma distância que tem a eternidade

Aos três minutos e meio, ela se pega rezando
para que essa somente um devaneio fosse
para que soubesse de fato a verdade
 

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Marisa Oliveira
Chanson D'Amour
Escrito por Marisa in the Sky

O que quer que pensasse, 
tudo voltaria a chanson d'amour

Havia insetos em volta da luz 
já se passavam das vinte horas 
retirou das unhas o esmalte azul 
de azul só ficou o blues da vitrola

Mas que quer que cantasse 
acabaria cantando a chanson d'amour

Terminou uma parte do desenho 
trocou umas palavras com a criança 
pensou na noite que chegara com receio 
desejou profundamente uma grande mudança

mas o que quer que desejasse 
desejaria de novo a chanson d'amour

Quis uma garrafa de um destilado 
lembrando do olhar daquele cantor 
aquele seu ar francês e seus cigarros 
cantando a frase da madrugada anterior

o que quer que lembrasse 
lembraria da chanson d'amour

que gosto de cais havia deixado tal madrugada. 
gosto de perfume amadeirado e cigarro caro 
que gosto de cinema, de Jean-Luc Godard 
gosto de chapéu preto e uísque barato

o que quer que fumasse 
ela fumaria a chanson d'amour

desejar o impossível é uma tolice 
uma tolice deliciosamente saborosa 
ela não deixou de lado essa crendice 
e acompanhou com um copo de vodka

e o que quer que bebesse 
beberia da chanson d'amour

afinal, uma nova noite começara 
e havia uma outra perspectiva ainda 
um perfume diferente ela borrifara 
e à nova noite desejou boas-vindas

mas no final do disco 
havia a chanson d'amour
 

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Juninho
Veja como é bonito o mundo em que vivemos.
Escrito por Juninho. Die

Veja como é bonito o mundo em que vivemos,
Onde uma triste história pode se tornar um lindo drama,
Onde vivem pessoas bonitas em todos os lugares,
É um lugar maravilhoso,
Onde pessoas dizem coisas bonitas,
Onde pessoas dizem eu te amo para todos.
É um lugar maravilhoso.
Para você...

Me faz ver que o mundo é maravilhoso,
Pessoas dizem que perdoar é divino,
Elas dizem amar o mundo em que vivem,
Elas sempre dizem sobre o amor.
Pessoas dizendo que amam o que tem dentro de nós,
Veja como é bonito o mundo em que vivemos,
Para você...
Não para mim.


Autor: Juninho. Die

Revisão: Dani Ribeiro

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Gustavo Hobold
Fogos Vermelhos
Escrito por Gustavo Hobold

É véspera de um novo ano. Mais um período de 365 dias seguirá, milhares de pessoas observarão o céu noturno minutos antes na tão esperava virada do ano a fim de observar os espetaculares fogos de artifício e então seguirão suas vidas medíocres como se nada tivesse acontecido. Cometerão os pecados que prometeram não cometer; seguirão os caminhos que prometeram não tomar; encherão a cara de rancor e usarão do preconceito para julgar e dominar os mais fracos.
Mas é ano novo, todos vestidos de branco, numa paz que parece ser eterna.


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O homem agarra a escada de corda do lado da balsa e começa a subir meio inseguro. Olha para baixo e vê a imensidão do mar com apenas o barquinho que usou para chegar ali. Odiava seu medo de altura, mas superou. Colocou o pé no casco enferrujado da embarcação e impulsionou seu corpo para cima.
Ajeitou um pouco a camisa amassada e passou a mão na testa para secar o suor. Caminhando um pouco a frente, seus olhos viram o que o cérebro não interpretou: milhares de fogos que seriam detonados em menos de vinte minutos; e ainda havia quinze daqueles barcos. Estava feliz por estar participando daquilo.
Finalmente ele caiu em si, tirou o walkie-talkie do bolso e começou a se comunicar.
– Estou na balsa; câmbio.
– Certo, você vê o foguete com defeito?; câmbio.
– Todos tem defeito?; câmbio.
– Claro que não, seu idiota. Você tem que procurar; câmbio.
– Não é melhor deixar isso pra lá? Vai demorar demais pra achar um foguetinho, deixa ele sem explodir; câmbio. – disse o homem, tentando livrar-se do trabalho infernal que conseguira.
– Você tem três horas.
O homem percebeu que entrara num buraco sem saída. Concordara trabalhar nisso, mas achava que era tudo computadorizado e que o chefe iria dar a posição exata do fogo de artifício estragado. Mas não dera; teria que procurar um a um, dentre alguns milhares; e já era 20h30min.
Enquanto o pobre trabalhador tentava consertar os foguetes, os "bens de vida" já se punham na praia em seus porsches, comprando dos mais pobres os lugares de destaque na praia. Crianças mimadas movimentavam todo o comércio, pois reclamavam que não podiam ver a onda batendo na areia, enquanto os vendedores ambulantes tentavam passar no meio da multidão vendendo refrescos.
Já se passara mais de hora e o homem continuava a procurar o maldito foguete que arruinara o seu final de ano. Pensava que ele desceria no barco e chegaria a terra sendo saudado por todos, já que salvaria o espetáculo de fim de ano. Mas sabia que não era assim. Receberia seus 50 reais e teria que manter a boca fechada.
– Já achou o defeito?; câmbio.
– Negativo; câmbio.
O tempo passava e nada de achar o foguete. A única coisa que sabia dele é que sua abertura estaria mais alargada que as demais, mas isso não era o bastante para tornar a busca suficientemente rápida. Achou que deixaria de ganhar os 50 reais. Achava engraçado que ganharia tão pouco para salvar tanta coisa, mas não tinha coragem para reclamar, afinal, acabaria indo para rua.
Depois de tanto tempo mexendo nos foguetes e engrenagens, sua roupa já deixara de ser branca e estava quase tão preta quanto sua cara. Mas pensava que depois era só passar em casa e trocar, afinal já estava quase no fim de sua busca; pelo menos era o que achava.
– Os fogos vão explodir em trinta minutos, seu maldito! Você ainda não encontrou essa porcaria?!; câmbio.
– Não, senhor, se eu não encontrar, peça pra cancelar o disparo aqui do barco; câmbio.
– Vou pedir pra cancelar seu pagamento também, infeliz.
O homem continuava a busca mesmo depois de todas as ameaças, afinal, tinha que receber. Poderia ainda desfrutar do lançamento de fogos em um local onde nenhum rico poderia ocupar: a cabine da balsa.
O tempo estava curto quando finalmente encontrou o foguete com a abertura mais larga que as demais, até que disparou um pequeno relâmpago em sua mente: não tinha sido ensinado como consertar o maldito artifício.
– Senhor, encontrei ele, como que eu arrumo?; câmbio.
– Você só tem que soltar o grampo que tá preso dentro do cano; câmbio.
Nenhuma ofensa dessa vez, achou estranho. Talvez o espírito do ano novo estivesse finalmente tocando o coração de seu chefe.
E ele continuava a mexer dentro do cano, e espreitando seus dedos, tentando alcançar o grampo. Então viu a solução de seus problemas: um galho jogado no chão, fino o bastante para desprender o grampo. Correu em direção a ele, mas sua mente voltou-se ao grito de uma multidão.
DEZ
NOVE
OITO
Suas pernas correram mais rápido que seus pensamentos, achava que dilatara o tempo e cada segundo durava uma hora. Agarrou o velho galho e correu em direção ao foguete defeituoso. Mas o povo continuava a gritar.
SEIS
CINCO
QUATRO
Suas pernas já estavam bambas, mas precisava acabar aquilo para assistir o espetáculo em um local privilegiado. Finalmente conseguiu enfiar o pedaço de pau dentro do cano, mesmo com sua mão tremendo mais do que os pensamentos.
TRÊS
DOIS
Começou a sentir um cheiro de queimado na balsa e sua audição sentiu um pequeno click. Estava feito, agora só tinha que correr direto para a cabine e esperar os fogos explodirem. Seria o espetáculo mais bonito de sua vida, disso tinha certeza.
UM
A primeira coisa a voar foram os braços, depois as pernas e finalmente a cabeça. Os fogos explodiram e formaram um lindo percurso vermelho que contrastou a negritude da escuridão.
Foram dezoito minutos de intensas explosões como em todos os anos. O povo aplaudiu, saudou o ano novo. Os "bem de vida" abriram uma champanhe e comemoraram a virada do ano. Todos se abraçaram, bateram palmas e voltaram para suas casas, de volta à vida que sempre levaram.
O chefe nunca estivera mais contente.
– Parabéns meu garoto, você conseguiu; vou levar o barco agora pra ir te buscar na proa; câmbio.
Mas o som do walkie-talkie ecoou sozinho em meio ao insuportável cheiro de enxofre.

Revisão: Daniele Ribeiro

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Fernando Costa
A Brincadeira
Escrito por Nego Rockhard

Levo um soco na cara, dois, três, quatro. Nojentos desgraçados. Cinco. Esse último doeu pra caralho.


As pessoas estão apenas assistindo, uns até viraram as costas. Porra, cadê os meus amigos agora?
Os canalhas malditos ainda me espancam, não paro de ouvir um zumbido. Ninguém faz nada. Desgraçados. Me abaixo em um lugar onde não apanho dos três ao mesmo tempo. O branco menor chuta minha costela, um, dois, três, quatro, quatro chutes. Nojento, sociopata, asqueroso, neandertal. Eles estão com uma raiva incontrolável, será que vão me matar? Porra, era pra tanto? Me matar? Ah não, haha, filhos da puta, morrer eu não vou mesmo. É pra brincar? Então vamos brincar nessa porra.

Me levanto com sangue nos olhos, gritando, eu é que sou o neandertal agora, quem sabe com a minha selvageria eles se assustem. Se assustaram, o maiorzinho de cabelo raspado pegou uma garrafa de vodka. Porra. E ainda tem vodka ali pra deixar alguém bêbado. Maldito, vai desperdiçar a bebida. Inconsequente, safado, folgado, estúpido. Tentou quebrar a garrafa na minha cabeça, ela não quebrou de primeira. Fiquei tonto. Lá vem a segunda garrafada. Desviei. Cadê os meus amigos? O de toca me deu um empurrão. Perdi o equilibrio. E lá vem a garrafa. Dei um tapa nela. Soco na minha cara. Devo estar horrível. Minha mochila. Tenho que pegar a minha mochila.

Coloco a cabeça entre os braços, tento passar por eles, soco no estômago, costela, cabeça. Passei. Corri pra mochila. Eles vêm atrás de mim como se fossem cães. Desgraçados, filhos de uma safada nojenta. Abro a mochila, pego meu canivete. O menor me deu uma voadora no meio do peito. Ordinário, canalha, covarde. Caí, mas me levantei rápido. Armei o canivete. "Vem agora safado!". Eles pararam. Olho pro maiorzinho, "O que foi seu puto? Pega a garrafa lá, vai, pega!". Corro atrás dele. O de touca quer ser herói, tenta me acertar um soco enquanto eu corro atrás do amigo dele. Acertou, no meio do meu nariz. Enquanto estava suspenso no ar, meti o canivete no cretino, bem no ombro, acho que rasguei o deltóide todo desse filho da mãe. Ele gritou feito uma menina. Afeminado, veado, fresco.

Caí de costas, só tenho tempo de ver o vidro todo trincado da garrafa vindo na direção da minha cara. Por sorte, ela já estava bem frágil, quebrou com muita facilidade na minha testa, não doeu tanto, mas abriu um corte, deve ter uns cinco centímetros, merda. Maiorzinho desgraçado. Peguei ele pela perna, enfiei o canivete no alto da coxa dele, perto da bunda e o desci com violência. Semitendinoso, bíceps femoral, semimembranoso, tudo indo pro saco. O maldito vai demorar pra levantar daí.

Agora sou só eu e o branquinho, o veado já está com cu na mão. O sangue está caindo sobre meus olhos, mal enxergo, mas nem assim vou deixá-lo escapar. Me arrebentou enquanto estava em maior número, ? "Filho da mãe, quando eu te pegar, vou cortar tanto seu flexor que você nunca mais vai pegar um copo de novo, vem cá corno, vem!". Ele está quieto, desgraçado.
Correria. Gritaria. Alguém pesado pula em mim. "Vai vagabundo! A casa caiu!". Tento entender o que está acontecendo. O cara esta fardado. Não acredito. Olho por cima do ombro. É um PM, e atrás dele estão meus amigos. Amigos cretinos. Chamaram a polícia. Viatura. Delegacia.

Porte ilegal de arma branca e tentativa de homicídio, só pra começar a brincadeira.

 
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Texto inspirado na obra de Rubem Fonseca, "O desempenho".

 

Revisão: Dani Ribeiro

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Maurício Fernandes
Violentamente Pacífico
Escrito por Maurício Fernandes


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Symara Melo
Um desabafo (in)esperado
Escrito por Symara Melo

O corredor era sinistro. Gotículas de água caíam do teto sobre o chão cru. As paredes, cobertas de mofo, exalavam um odor desagradável. Sombras escureciam o local, obstruindo a visão de Grace. Ela andava vagarosamente.
De súbito, ouviu uma bela voz. Calorosa, doce... Parecia próxima. Apressou o passo cautelosamente e alcançou uma porta. Antes que pudesse tocar em sua maçaneta, ela escancarou-se. Gritou.
Um lustre do século XIX iluminava uma velha mesa disposta no centro do que parecia ser uma sala. Em torno dela, havia dois bancos. Em um deles estava sentado um rapaz. Sua pele translúcida parecia arder e seus misteriosos olhos negros fitavam a recém-chegada. Cabelos avermelhados e ondulados moldavam-lhe o rosto e sua boca retorcia-se em um belo sorriso.
- Olá, estranha.
Já ouvira aquela voz. Involuntariamente, seus pés traçaram uma linha reta até o segundo banco. Sentou-se. Agora, de frente para a esplêndida criatura, podia enxergar claramente a delicadeza de seus traços. Imersa em devaneios, Grace lembrou-se do lugar onde vira aquele rosto. O reconheceu. A irritação contornou seu rosto.
- Estou chateada com você. É sempre assim: nunca lhe procuro, mas você teima em me encontrar. Por que não cansa de se intrometer onde não é chamado?
- Grace, eu sou o rei do mundo!
- Como? Rei? Quem está falando em rei...? Quero que pare de me perseguir. Você apareceu em minha vida novamente e causou um estrago! Quase me destruiu!
- Grace... Eu quero fazer um jogo.
- Mais jogos? Não, para mim já basta. Mas não tenho dúvidas que este ano foi bem divertido para você.
- Você está falando comigo?
- Com quem mais eu poderia estar falando? Estou verdadeiramente furiosa. Você aí, sempre palhaço, sempre pregando peças que terminam em lágrimas. Nem sei porque ainda estou perdendo o meu tempo aqui, tendo esta conversa.
- Só depois de perder tudo é que ficamos livres para fazer qualquer coisa, Grace.
- Estou perdendo tudo mesmo. Inclusive a paciência.
- Grace, o poder de um relacionamento está nas mãos de quem se importa menos.
- Você me fez perder a razão, fez meus pensamentos serem dia e noite pautados em uma só pessoa e agora quer falar de “poder em um relacionamento”? Poupe-me, por favor!
- Grace, o único lado bom de morrer de Mim é que você continua viva.
- Viva? Despedaçada. Desacreditada. O coração em decomposição, devorado por fungos e bactérias, no mais profundo buraco. Não acredito mais em você. Traiçoeiro.
- Grace, vamos lá... É o Amor, não o Papai Noel.
- Acabou. Não estamos mais tendo essa conversa. Volte para o lugar de onde veio e nunca mais saia de lá. Invada outros corações e deixe o meu em paz. O "eu te amo" já está banalizado mesmo.
- Minha adorável Grace, com o tempo, todos os finais tristes se tornam alegres. O final triste é só para o autor parar de contar a história. Mas ela continua. Só não é contada.
- Cale-se! É o sufic...
E então o lustre apagou-se. O estonteante rapaz sumira. Grace estava sozinha na sala, amedrontada. Parecia-lhe que aquela breve conversa acontecera há anos. Eros, seu canalha.
Oito e quarenta e cinco da manhã. Acordou.

Autora: Symara Melo

Revisão: Dani Ribeir